Rusko em dez minutos, e ali já estão oitocentas almas se ajeitando no meio do Paradiso, Amsterdam, no olho do furacão do tempo e da loucura, oitocentas almas carburando seus cigarros de maconha e de haxixe legalizados pelo governo, quase todas de preto, quase todas com passaportes carimbados na alfândega de Londres em alguma outra estação do vento.

Daqui de cima dá para ver todas elas se movimentando como máquinas em desencaixe perfeito, um redemoinhos de buscas e de perguntas se enrolando entre o palco e o balcão onde se pode pagar cinco euros por uma cerveja boa e honesta; está todo mundo esperando o momento certo para chegar ainda mais perto, começar a gritar, e colocar fogo em outro baseado cuidadosamente enrolado.

Não demora nem os dez minutos e ali está Rusko, moicano no lugar, terno preto e bem cortado, um monge jovem e moderno carregando nas costas uma mochila com um computador maltratado pelos cinco ou seis anos em que já está na estrada – é um legítimo DJ de dubstep – talvez até o mais famoso deles, e agora, vestido assim, parece até um astro pop em um momento bom de sua carreira fugaz.

Fugaz porque não há uma espécie animal que possa aguentar o que ele vem aguentando – cinco apresentações por semana, cinco países diferentes, cinco plateias de jovens loucos e alucinados, alimentados em suas ânsias de uma vida de perigo, loucura, adrenalina, medo e poesia. Rusko parece um guia com as respostas exatas – alguém que conhece um caminho no meio da vastidão de possibilidades de que é feita a Europa agora.

E então do palco agora vem um dubstep mais pesado que o outro – Rusko sorri – e o Paradiso começa a se desfazer em oitocentas corpos desencontrados rodando de um lado para o outro – rompendo com os limites de espaço e tempo – e nada de pegar leve, nada de segurar a onda – este é um movimento de dubstep em Amsterdam, a capital irônica do mundo, e não há nenhuma chance de quebrar toda a tensão que paira no ar.

Só com pancadaria. Mas a pancadaria é razoavelmente controlável. Um dubstep atrás do outro, cada vez mais escuro e gordo, mais estranho e menos assimilável, e a pista vai crescendo como se tivesse ganhando vida própria, como se agora todas as oitocentas pessoas tivessem suas respostas – amor e medo dançando juntos no meio de uma escuridão de luzes verdes e vermelho violeta.