TR #25 (LOVE)

Algum dia nós vamos estar juntos. Mesmo que isso soe incerto e imaturo, precipitado e inseguro, perto das necessidades levianas levantadas pelo cotidiano iminente – os destinos e as chegadas, os horários e as noites desesperadas – de bar em bar, de garrafa em garrafa, esquina em esquina em busca de uma busca que seja menos injustificada.

Amar como se ama o último cigarro do maço, quarta-feira a tarde, quando o universo inteiro parece perto de um colapso inevitável. O Mal Estar da Civilização. Quando muitos são os caminhos, mas poucas são as certezas. Muitas são as dúvidas, de perguntas que ainda não inventamos.

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Esta Trouble Radio #25 fala de amor – mas de um amor que ainda estamos procurando.  Um sentimento que resplandece as vozes de uma geração em transe. Começando por Bondax, esse duo londrino que tem sido comparado a… The xx? E em seguida um cover pop-maravilhoso de The Weeknd, por Ellie, e Bwana, lançamento silencioso do selo Mad Decent, de Los Angeles.

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Look at where we are, talvez a música mais bonita do Hot Chip até hoje, lançada este mês no novo album dos ingleses, In Our Heads. Acompanhada de Bobby Womack, uma espécie de Gil Scott-Heron do soul, lançado pelo mesmo selo de Jamie xx e Radiohead. Return, em seguida, é de um grupo tropical que enaltece corações apaixonados de uma Nova York que ainda não perdeu todo o controle.

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E ainda tem outros tantos dos nossos sentimentos nas faixas que completam esta edição. O hip-hop underground The Black Atlass. Uma faixa bônus do primeiro álbum do The xx. O novo single maravilhoso do introspectivo Beach House. Um Wiz Khalifa para acordar. E Grimes, essa garota canadense que tem embaralhado algumas certezas com um som oitentista-futurístico.

Para o resto ainda nos faltam palavras. Por isso vamos só ouvir. E pronto.

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tracklist trouble radio #25 (love)

01- Bondax – All I Want
02- Ellie – High For This
03- Bwana – This is Real
04- The Weeknd – The Morning
05- Hot Chip – Look at where we are
06- Bobby Womack – Please Forgive My Heart
07- Kiwi – Return
08- Oscar Key Sung – All I Think About
09- The Black Atlass – Castles
10- The xx – Do You Mind
11- Beach House – Myth
12- King Creosote and Jon Hopkins – Bats In The Attic
13- Climax
14- Wiz Khalifa – Wake Up
15- Jesse Boykins III – Zoner (Demo)
16- Dawn Golden And Rosy Cross – White Sun
17. Grimes - Oblivion


ARTHOUSE

Hum. Não é que a gente goste dessas nomenclaturas meio atravessadas. Post-Dubstep. Alternative R&B. E tudo mais. Hehe. Mas, bem, desde que o The xx surgiu, lá em 2009, houve aí uma carência de gênero que pudesse enquadrar o trio de Londres. Alguns chamaram essa nova Era que apontava no horizonte de… Revolução do Silêncio. Uma revolução encabeçada por Jamie xx (produtor do xx),  James Blake, Mount Kimbie e, depois, Weeknd, Frank Ocean, Drake

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Uma mistura de trip-hop, hip-hop, uk house, uk bass, dubstep e rock (?)! Mais ou menos o estado em que se encontra a Música como um todo hoje. Ou a Cultura, vai saber. Onde cada club, pub ou quebrada representa os gostos e anseios de jovens e sujeitos que muito se misturam em crenças e credos. Uma miscigenação provocada pelo desenrolar da internet. É claro.

Bem, daí veio a necessidade de um novo nome – ou talvez gênero – musical. Para falar de uma movimentação cultural que pode salvar as bandas das ruas e garagens vazias e esfumaçadas. Dar esperança para cantores de quarto, djs de apartamento e produtores desfavorecidos. E também para os ouvintes sedentos e apaixonados, que sempre querem tirar mais e mais das músicas que escutam entre alguns minutos de silêncio que a vida trás.

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ArtHouse, pois. “O termo descreve a fusão entre o Post-Dubstep e Alternative R&B. ArtHouse também pode ser visto como um guarda-chuvas para ambos os gêneros. Os pioneiros dessa fusão são The Weeknd, The xx e Active Child. Os novatos são Rhye, Black Atlass, Evy Jane e muitos outros”, escreveu o tumblr arthouse. Com a ajuda da revista eletrônica MTHRFNKR, eles subiram hoje para a internet esta mixtape incrível. Tem muito daquilo que acreditamos. Sonhos. E música. 18 músicas! Lança o play! (;

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tracklist arthouse mixtape

Black Atlass – Castles
Mar Variation – Single
Evy Jane – Say So
Rhye – Open
Active Child – Hanging On
Julian – Joy
The Weeknd – What You Need
Usher – Climax
AlunaGeorge – You Know You Like
Creep – You (feat Nina Sky)
Shlohmo  - Places
Drake – Marvins Room
Frank Ocean – Thinking About You
The Internet – Love Song
The xx – Islands
Jesse Boykins III – Light to Dark
Jai Paul – BTSTU
Houses – Drug Issues


TR #13 (THANK LONDON LATER)

Um beijo vindo da escuridão, talvez pra dizer que ela havia chegado. As coisas estão feias. As coisas estão bonitas demais. O sistema não pode ruir, não, de jeito nenhum. Aonde é que vamos parar? Eu não sei. Em Londres… vai saber. Ainda mais em tão pouco tempo, nos tempos em que tudo está tão rápido. O que dá para saber é que paira no ar um… sentimento maravilhoso, que carrega em meio a todo aquele peso e velocidade, o coração de vários jovens, o coração dos caminhos de uma música que nos faz mexer diferente e novamente, que nos leva para cima, para baixo e adiante, todo o tempo, carregando doses cavalares do Agora, de amor e caos, doses do obscuro e do sereno.

É algo que se dermos as mãos nos levará pelos novos caminhos que ainda não caminhamos. Os caminhos que só sabemos existir às vezes, quando vez ou outra, sentimos um brilho novo, que na verdade sempre esteve ali, nas nossas próprias profundezas. É preciso ter coragem para escutar o que esses novos poetas têm a dizer. É preciso se levantar e ter coragem, para essas novas palavras, esses novos mantras, essas novas ondas sonoras, para James Blake, este gênio do silêncio calculado, Jamie XX, este guru das Novas Ondas Eletrônicas, SBTRKT, este Misterioso Cidadão, para Jamie Woon e Drake, e até para Gorillaz, que Sempre-Esteve-Na-Frente-de-Muito.

Para esses tempos estranhos, é preciso ter o espírito corajoso e muito amor no coração. Para entender Londres, e todo O Sentimento, é preciso tempo e cuidado. E aí um dia saberemos, e entenderemos e, por fim, agradeceremos Londres. Por tudo. E por nada.

Vamo que vamo, porque casas estão pegando fogo, mas nós podemos apagar.

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tracklist trouble radio #13 (thank london later)

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01- The xx and Aaliyah – Intro Again
02- SBTRKT feat. Little Dragon – Wildfire Remix (feat. Drake)
03- Africa Hitech – Too Late
04- Eliza Doolittle – Money Box (Jamie xx Remix)
05- Glasser – Tremel (Jamie xx Remix)
06- The xx – Basic Space (Jamie xx Remix)
07- Roska feat. Jamie George – Wonderful Day
08- Jamie Woon – Night Air
09- Drake – Marvins Room
10- James Blake – I Never Learnt To Share
11- James Drake – Wilhelm’s Fucking Best
12- Dawn Golden and Rosy Cross – Blacks
13- Gorillaz – Doncamatic (The Joker Remix)
14- Digital Mystikz – Anti War Dub.

REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO

James Blake – Limit To Your Love

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The Quiet Revolution. O título é apelativo e especulativo, mas alguma coisa faz sentido nessa história. Veja bem, é certo dizer que, na verdade, estamos vivendo a Era do Barulho. Nossos ouvidos precisam lidar todos os dias com buzinas, caminhões despejando coisas na rua, máquinas pesadas, despertadores desesperados, comerciais de TV, jingles grudentos, Rihanna, e por aí vai. E, para piorar as coisas, no final do dia vamos pra balada querendo encontrar uma vida mais sossegada e, bem, saímos de lá com os ouvidos zumbindo, cheirando a cigarro, arrependidos de ter pego a pessoa errada, e coisa e tal.

Certo. Mas complicado mesmo, pode ter certeza, é ter morado em Londres nos últimos 10 anos.


Antes, o Dubstep

É que, além de ter que lidar com todos os problemas listados aqui no começo (tirando a parte do Bonner), possivelmente você ainda teria que ouvir Dubstep no fim do dia para poder encontrar as pessoas bacanas da cidade. Afinal, é difícil pensar outro movimento musical que tenha feito tanto sucesso na Inglaterra nos últimos anos do que essa mistura de ritmos – dub, drum ‘n bass e grimme, sobretudo – que os subúrbios ingleses estavam conspirando para além dos guetos, alcançando as boates, os pubs, a internet, as rádios, e o mundo.

De pouco em pouco, djs e produtores como Kode 9, Skream  e Burial tornavam-se figuras notáveis na cena local. Para legitimar ainda mais o movimento, eles contaram com a ajuda da jornalista inglesa Mary Anne Hobbs, “A Rainha do Grave”, que enfiou o dubstep goela abaixo dos ouvintes da BBC Radio 1 durante bastante tempo.

Porém, pode colocar aí que, até 2002, o dubstep guardava muita semelhança do que foi o início do punk  nos EUA e na própria Inglaterra. Nesse  começo da primeira década do século XXI, se você quisesse ouvir graves distorcidos, fritações eletrônicas e o prelúdio da música do futuro, teria que se desdobrar para conseguir fitas, gravações caseiras e arquivos mp3 com alguns moleques de 17, 18 anos que até então eram vistos como possíveis futuros criminosos. E eles estavam inventando algo que nem sabiam onde é que iria chegar.

Chegou ao ponto que, hoje, o dubstep já tem uma ala mais pop. Como todos os ritmos musicais. E o bom e ‘velho’ dubstep, pesado e pulsante, claustrofóbico e redondo, tem ficado tão pesado e apocalíptico que muita gente começou saltar do barco e/ou procurar alternativas para elevar novamente a expectativa de vida dos próprios ouvidos.

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A Revolução

Abençoado seja o The xx, pois. No auge do dubstep inglês, e no epicentro de um furacão de barulho, graves e baladas perigosas, eis que surge este quarteto de jovens obscuros, tímidos, vestindo preto e cantando baixinho. Romy Madley Croft (vocais e guitarra), Oliver Sim (vocais e baixo), Jamie Smith, ou Jamie XX (produção) e Baria Qureshi (teclado), que saiu da banda em 2009, colocam um elemento essencial que estava faltando na cena alternativa de música da Ingleterra: o silêncio.

Com sons mínimos, calculados e vocais impecáveis, o álbum de estréia da banda, XX, de 2009, não só foi eleito como um dos melhores discos da década por milhões de blogs, jornais e críticos, como também salvou a vida de centenas de londrinos e jovens espalhados pelo mundo que já não sabiam mais como respirar no meio de tanto barulho. E, inconscientemente, o quarteto acabou dando o pontapé inicial da Revolução do Silêncio, que acometeu Londres (mais uma vez) nos meses subseqüentes.

James Blake foi um dos primeiros a colocar um álbum ”silencioso” na praça, o James Blake, lançado em fevereiro de 2011. Assim como o The xx, as batidas de Blake são limpas, claras e calculadas. O vocal entra sempre na hora certa. E ele ainda toca piano e canta sobre os desamores mundanos. “I dont know about my dreams. All that I know is i’m fallin’, fallin’, fallin’. Existe uma diferença, porém. Em James Blake, percebe-se claramente vários flertes diretos com o dubstep. Nada muito pesado, é claro. Mas tal queda pelos baixos sintetizados e distorcidos valeu a Blake a bandeira de “pioneiro do movimento pós-dubstep”.

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Bloom – Jamie xx Rework by Radiohead

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Ainda em fevereiro de 2011, Jamie XX (dj e produtor do xx) colocou também na praça o álbum We’re new here, com remixes e releituras do álbum I’m new here, de Gil Scott-Heron, considerado por muitos o “pai do rap”. We’re new here mostra o silêncio do xx com a força do hip-hop e a irreverência do dubstep. A combinação é tão cabulosa e certeira que, é claro, o disco vai estar em qualquer lista dos melhores álbuns deste ano.

E não é nada estranho perceber que, assim como foi com o Dubstep, são moleques de 20 e poucos anos que estão ditando o “novo futuro da música”. Na mesma linha que James Blake (22) e Jamie XX, outros nomes que vem ganhando os blogs e rádios estranhas do mundo é o inglês Jai Paul (21), que soltou uma música na internet em 2007 e então desapareceu, e o norte-americano Nicolas Jaar (20), nascido em 1990 (!). Além de colocar o excelente e… silencioso álbum Space is only noise na roda este ano, Nicolas, que cresceu em Santiago, no Chile, já é dono de um selo de música eletrônica.

A “Revolução do Silêncio” segue com pelo menos quatro soldados, como se vê.  Porém, o que não falta é investimento e esperança no movimento, principalmente por parte da XL Records, que lançou tanto XX, como também Jamie XX e o único single do Jai Paul. Além do mais, sabendo da loucura que anda a música eletrônica londrina, da decadência do indie com lançamentos óbvios e redundantes, e sabendo como andamos precisando de um pouco mais de fôlego para respirarmos melhor no escuro… é de se esperar que esta revolução não tarda a ser televisionada para o mundo. Vai vendo.

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Nicolas Jaar – Space Is Only Noise if You Can See by CircusCompany

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Anexo

Future Sound – An Underground Electronic Music Documentary from Jamie Whitby on Vimeo.

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Future Sounds – An Underground Eletronic Music Documentary é um mini-documentário que discute o futuro da música a partir da cena de dubstep de Londres. Tem depoimentos de alguns nomes importantes como Roska, Scratcha DVA, Blackdown e Mark Fisher. O sotaque britânico não ajuda muito, mas se pá dá para entender alguma coisa.

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