Malditos hippies. É quinta-feira, dia 7 de outubro, faltam dois dias para o começo do SWU, e já estamos nós quatro na estrada para Itu, ondulando as nossas máquinas fotográficas no vento que bate a 140km/h na lataria do carro, só para tentar fotografar as linhas que vão sendo engolidas na estrada.

Finalmente o céu está inteiramente azul, mesmo sendo primavera, mesmo depois de tantos dias de chuva forte, incessante, que não permitia que a gente largasse tudo e seguisse adiante. Menos de 600km nos separam da Fazenda Maeda, do Woodstock desta geração, e dentro do carro vão dois jornalistas, um advogado e um piloto de avião, todos alucinados com a ideia de fazer parte deste acontecimento particular da nossa história. Nem parece que não temos os ingressos para o festival.

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OS INFILTRADOS

Pouco importa os ingressos, para falar a verdade. Depois de sete horas de viagem, alguns desvios errados e algumas porteiras de fazendas ultrapassadas, conseguimos enfim começar a serpentear o carro pela estrada de terra da Fazenda Maeda. Como não tinha ninguém na portaria, nenhum segurança, nem policia, sentimos que éramos bem-vindos por ali. “Talvez os organizadores dessa estrutura toda, que envolve 150mil pessoas, sustentabilidade e música indie, sejam uns malucões”, pensamos. Talvez.

“Vocês estão aqui para a reunião da Oifm, certo?”, perguntou um sujeito logo onde estavam sendo montadas as catracas do evento. “Sim”, concordei, já emendando: “Você sabe se já começou?”. O homem, mais tranquilo, continuou: “Acredito que não. Vou chamar um carrinho de golfe para levar vocês. Tem muita lama aí pra baixo”.

Ótimo. Agora estamos nós quatro de novo, dois jornalistas, um advogado e um piloto de avião, em um carrinho de golfe, indo para uma reunião que não fomos convidados. Depois de o motorista Eduardo desviar de uma roda gigante, finalmente conseguimos avistar os dois palcos principais, altos e imponentes, ganhando os últimos retoques na parte mais baixa da fazenda.

Se eu não tivesse tão paranoico com a nossa situação, provavelmente ficaria emocionado.

Explicamos nossa situação para o Eduardo e, sem precisar de muito esforço, ele concordou em nos levar para a área da Produção, o núcleo de tudo, que consistia em algumas tendas montadas a alguns metros atrás do palco. Agora só faltava encontrar a pessoa certa.

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COMEÇA COM QUEM?

Tirando o nosso prazer imensurável por riscos, música e caminhos imprevisíveis, existia, sim, uma razão lógica para estarmos ali dentro da fazenda, dois dias antes de tudo acontecer, andando de um lado para o outro, fotografando, filmando, desenhando nos dedos os contornos das tendas, dos palcos, da estrutura de som que prometia dias inesquecíveis com as bandas que escutamos quando estamos nos nossos melhores dias.

“Queremos ajudar a documentar tudo isso nos registros da história”, dissemos, com sinceridade, olhando no fundo dos olhos de Mac, um sujeito de trinta e poucos anos, tatuado no peito, que foi apresentado para a gente como o diretor artístico do festival. Sentimos os olhos dele brilhando, uma faísca tímida do loucão que ele já deve ter sido, um suspiro ensandecido daquela parte de sua alma que grita, que canta, que é sincera com seus possíveis sonhos de fazer as coisas acontecerem. “Liga para ela amanhã (indicou a mulher ao seu lado), que vamos ver o que podemos fazer”.

(Começou com a gente)

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A gente poderia ter feito tudo exatamente como fazem os demais jornalistas cavaleiros da verdade, que, sempre algumas semanas antes da data marcada, mandam os seus nomes, são colocados na lista, chegam ao evento no dia, escrevem sobre ele, e vão embora. Mas não. Essa história exigia mais tato, mais olhar, mais pessoalidade. O SWU não era para ser um festival como qualquer outro.

Com a promessa do possível credenciamento, onze horas da noite, seguimos para o carro – mais uma vez em cima do carrinho de golfe – e lembramos de outro problema, bem simples por sinal: onde vamos dormir?

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PRIMEIRA BARRACA DO SWU

Não foi difícil chegar ao Camping Premium naquela altura da noite. Além de estar muito bem sinalizado, nenhuma alma da Lei estava no caminho para segurar aquele gol preto, apertado, que seguia balançando pelo cascalho largado na estradinha de terra.

Fomos as primeiras pessoas a acampar no Starts With You 2010. Sem ingressos, sem dinheiro, sem precisar dopar ninguém.

Mas acordamos com um maluco gritando nervosamente no telefone: “De onde veio essa barraca que está aqui? Arrebentaram a cordinha aqui, pô. Preciso de um segurança no Premium, agora!”. Saímos os quatro desesperados, esfregando os olhos, e dispostos até a ajoelhar caso fosse necessário.

Porém, “Bonézeira”, como o apelidamos, foi o primeiro maluco de verdade a cruzar a nossa história. E tudo que ele disse foi: “Não quero saber como vocês conseguiram parar aqui. Só saí quebrado”.

Como não tínhamos rumo, e estava bem cedo, voltamos para a área principal da Fazenda Maeda e deitamos na grama, tranquilos, esperando a autorização do Mac para que fizéssemos a nossa parte nos próximos dias.

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O SONHO ACABOU

Não fomos credenciados. Uma assessora de imprensa nos encaminhou para outra, que encaminhou para outra, que… E, antes de começar a anoitecer, a organização do evento começou a fechar o cerco e expulsar todo mundo que estava andando pela fazenda. A ordem incluía jornalistas, músicos, moradores da região e… hippies. No caso: nós.

O sonho tinha acabado. Nossa frustração maior não era com a organização, com o Mac ou com o Bonézeira. Nada disso. Todo o silêncio que nos acompanhou pelas próximas horas tinha a ver com o sentimento inevitável de reconhecer, tardiamente, que o Sistema não se sucumbe às manifestações emocionais, mesmo as mais sinceras. De uma hora para outra, começamos a aceitar que o SWU não seria nenhum Woodstock. Não em 2010. Cada geração tem o festival que merece para si.

(Jornalismo de Estrada)

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OLHANDO PARA O FUTURO

Sem nenhuma chance de conseguirmos as credenciais – e com ainda menos dinheiro – seguimos até uma pousada chamada Paraíso, em Sorocaba. Quando chegamos, Jean, de cinquenta e poucos anos e um dos proprietários, estava de pé em frente a TV, encarando uma imagem fixa de John Lennon. No dia seguinte, o ex-beatle completaria 70 anos se estivesse vivo.

Jean não cobrou as nossas diárias.

Menos de doze horas depois estávamos os quatro dentro da Fazenda Maeda, bem antes do primeiro show, bem antes de escurecer. Não pergunte como entramos. O palco estava lá, bonito, imponente. Existiam tendas para discutir sobre o meio-ambiente. Todo o lixo produzido seria reciclado. E tudo se mostrava em perfeita ordem. Enquanto para milhões de pessoas o festival estava começando, para nós tudo aquilo parecia uma grande ressaca.

Toda vez que nós quatro pensarmos no festival – esta noite, amanhã ou daqui a 40 anos – não lembraremos dos shows, das tendas, do trânsito ou das filas. Lembraremos de Jean. E pensaremos sempre nos dois dias anteriores a tudo, quando o SWU aconteceu apenas na nossa simples e ingênua imaginação.