BAIXARIA UÓ (ENTREVISTA)

Provavelmente o Brasil não ouviu nem um porcento do tecnobrega que anda sendo escrito em becos, quebradas, guetos e cidades espalhadas de norte a sul do país. Ainda é mínimo o conhecimento que temos do gênero – e de seu potencial expansionista, avassalador, que ainda deve extrapolar qualquer tipo de fronteira física, cultural. É um ritmo que ainda vem sendo moldado, esculpido, ganhando formas próprias conforme mudam as estações. Cresce a producão e triplifica o público. O que antes era quase-marginal, hoje é massa. É povo, e é elite. É o novo funk. É a abertura da novela das oito.

Também é mínimo o caminho percorrido pela Banda Uó até agora. Apesar de já completarem alguns poucos anos na estrada introduzindo o ritmo em baladas indies, hipsters brasileiros e um ou outro playboy, o trio de Goiânia sequer tem um álbum lançado. Candy, Davi e Mateus ganharam notoriedade na internet com um clipe do hit Shake de Amor, lançaram um EP com poucas faixas, gravaram com o rei do axé Luiz Caldas e, bem, tem ensinado toda uma geração o molejo paraense, em festas e shows apertados e apoteóticos.

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Hit Uó

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Os curitibanos do Bonde do Rolê abriram algumas portas – quando colocaram a Uó para abrir seus shows. Um elo entre o funk e o tecnobrega que deu tão certo que acabou se repetindo mais tarde, com a formação do selo Avalanche Tropical, “uma junção de pessoas. Um grupo. Um nome para ter esse cardume. Quando um membro vai tocar em algum lugar, a gente já manda o line-up de todos, pra jogar todo mundo pra frente”, explica Candy Mel.

Hoje, sexta-feira, um combo da Avalanche desembarca em Belo Horizonte para duas festas fortes. A Baixaria, no Granfino’s, recebe a Banda Uó mais o Baixaria Dream Team, de DJs. Na Dduck, Laura Taylor e Gorky (Bonde do Rolê) e André Paste (remixeiro maluco) fazem a festa da Avalanche Tropical girar. Impossível escolher entre um e outro. Então é melhor colar nos dois.

Conversamos com a Candy Mel, vocalista da Banda Uó, pelo telefone ontem, assim que ela deixou o São Paulo Fashion Week. “Fomos convidados para assistir aos desfiles”, contou. Já em casa, e tranquila, Candy falou do disco novo e garantiu que muita coisa ainda vai acontecer na história da banda. A começar pelo movimento de hoje a noite, que promete ser intenso.

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A Banda Uó é um desses fenômenos que surgiram na internet – e, com isso, tem um público que acaba extrapolando o círculo formado apenas pelos apreciadores da Música Brega. Quem são as pessoas que mais interagem com a banda?

É um público bem diferente, e a nossa banda alcança vários guetos. Acho que a gente atrai um público por ser um brega para jovens. Mas hoje em dia tem até mães que gostam.

Antes da Banda Uó não tinha nenhuma banda de brega no Brasil que os jovens curtiam. Então a gente surgiu através da internet – e a internet foi um caminho que a gente utilizou para colocar isso daí, o que a gente achou que ia dar certo.

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O tecnobrega – assim como o funk – tem uma origem na expressão popular dos guetos e periferias do Brasil. A ~classe intelectual brasileira~ demorou um pouco para aceitar essas expressões. Hoje, contudo, parece que esse cenário tá mudando, certo?

Com certeza. O tecnobrega está alcançando patamares maiores que os esperados e está se consolidando assim como outros gêneros. Como o funk mesmo, que antes era marginalizado e que hoje toca em boate de playboy.

As coisas tendem a ser mais abertas com o tempo. Foi assim com todos os estilos musicais – com o rock, o soul, o blues… inclusive a MPB, que também começou marginalizada numa época que tinha toda uma bagunça cultural no brasil – e que hoje em dia é tido como um gênero completamente chique – consumido por uma classe social completamente intelectualizada.

O tecnobrega está crescendo sim. É um gênero que está bem no início ainda, as coisas ainda vão acontecer com mais firmeza.

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Trio Uó

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Será que o Bonde do Rolê também tá entrando nessa? Eles gravaram recentemente um remix – em tecnobrega – para uma música do Major Lazer, do DJ Diplo.

Eles não colocaram tecnobrega no disco novo não. O Bonde do Rolê tá tentando colocar uma linha mais pop nesse álbum deles, mas sem deixar o funk de lado. O tecnobrega eles deixam pra gente mesmo. Haha.

Essa remixagem que eles fizeram para a música ficou bem legal. O Diplo gosta de trabalhar com músicas assim do gueto – ou uma coisa mais tropicalizada – então não achei muito diferente não, achei que a proposta dele foi o que ele faz mesmo.

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Como foi a experiência com o Diplo, no começo do ano? Vocês se encontraram, né?

Sim, ele esteve em estúdio com a gente no Rio de Janeiro. Ele veio ao Brasil, foi para o Rio, encontrou com os meninos do Bonde, veio fazer uma pesquisa de campo. E como os meninos do bonde fazem parte da Mad Decent – que é a gravadora dele – eles tentaram com o Diplo para poder fazer alguma coisa com a gente. O Diplo topou na hora porque ele já conhecia o nosso trabalho, já tinha escutado o primeiro hit da gente. E aí foi um dia inteiro que a gente passou na gravadora juntos, com ele gravando uma música – que é a Gringo, que está no nosso CD. A base foi inteira construída nesse dia.

A produção foi dividida entre o Diplo e o Davi, que ficou junto. E também teve a co-produção do Gorky (Bonde do Rolê), né. A ideia fundamental dessa música, a base, foi tirada pelo Diplo mesmo.

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E essa faixa vai estar no primeiro álbum de vocês? Quando sai?

Isso. A gente deu uma enrolada no lançamento do álbum, e a culpa não é nem nossa, porque tem tanta coisa pra fazer que fica meio difícil. Nós não paramos de fazer show, a gente continua tentando cumprir todos os nossos compromissos. E pra conseguirmos fazer um CD assim tão rápido, como a gente fez, tem que lançar, fazer capa, mais um milhões de coisas que ainda precisam de ser acertadas – e que a gente precisava de ter parado pelo menos por uns dois meses para ficar por conta do CD.

A gente quer que ele saia – e já está quase tudo pronto. Falta alguns detalhes, falta a mixagem, escolher a capa, e mais a parte interativa do CD, que a gente está terminando de fazer. Quando terminarmos vamos lançar, e isso deve acontecer no máximo em setembro. A gente quer lançar um clipe antes. Mas a falta de tempo que tá enrolando a gente mesmo.

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Enquanto o álbum não sai, dá para viajar no EP de estreia da Uó. Play.

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VINYL LAND | O SELO DE UM HOMEM SÓ

Já tem algum tempo que a gente vem se esbarrando com o Luiz Valente em algumas quebradas de Belo Horizonte. Aliás, lembro de ficarmos bem chocados ao saber que tinha um sujeito aqui na cidade prensando vários artistas brasileiros em vinil. Nós já tínhamos o primeiro LP do Dead Lovers, de 2010, e o primeiro compacto do Graveola, lançado em seguida. Porém, só depois que começamos a ligar as coisas.

Entramos em contato com o Luiz, pela primeira vez, quando saímos de Londres, em agosto deste ano. Ficamos um tanto maravilhados com o tanto de discos que estavam saindo nas ruas de lá e, bem, começamos a vislumbrar a possibilidade de prensarmos algumas coisas que andamos produzindo, aqui no Bubble Trouble. Músicas como a do Steven Doris, duo Brasil/França assinado com o selo que ainda não inventamos.

Lembro que Luiz foi atencioso pra caralho. Se dispôs a ajudar no que fosse preciso para poder fazer a coisa girar. Esse Steven Doris, que também estava em Londres, chegou a visitar algumas casas escuras e estranhas, de londrinos de vinte e poucos anos que vem gravando discos em casa. Parece que eles usam tipo uma máquina que risca discos virgens, gerando um resultado, claro, bem menos satisfatório do que o formato tradicional.

Fato é que, em todos os dias que estivemos na Europa, no verão deste ano, acompanhamos o lançamento de dezenas de LPs de artistas de  visibilidade mediana.  Roska, SBTRKT, singles duvidosos de Jamie xx. Uma grande parcela vem optando por esse formato meio caseiro, as vezes até sem um carinho especial com o desenho da capa. O que querem é poder escutar – e discotecar – a própria música em um formato mais charmoso e maleável do que CDs ou mp3.

Foi até mais ou menos isso, que fez o Luiz Valente entrar na jogada. No começo dos anos 2000, Luiz era dono de uma casa chamada Lugar, nos arredores da Savassi. Segundo ele, “o Lugar era um espaço cultural tipo o Studio Bar, assim, na época em que o Studio Bar estava fechando pela primeira vez. Porém, lá acontecia de tudo. Exposição de fotografias, exibição de filmes…”. Isso, num tempo em que as coisas caminham em outro ritmo.

“Estava começando a era digital”, aponta. “Não tinha Facebook, fotografia digital ainda era bem devagar, não tinha como compartilhar igual se faz hoje”. Apaixonado por vinil, Luiz separou uma das noites do espaço para fazer uma festa dedicada ao formato. O nome, Vinyl Land. Todo um pessoal começou a colar para preservar e prestigiar os discos, o que acabou levando Luiz para um próximo passo. “Eu queria poder tocar as coisas novas que estavam surgindo. Até coisas pops mesmo, como Los Hermanos. Mas não tinha jeito. Não tinha como comprar. Não existia!”

Em 2003 a casa fechou, a festa andou por algumas edições e Luiz acabou se mudando para Londres. Do lado de lá, trabalhando em um selo, a Vinyl Land foi tomando formas de algo muito mais concreto do que uma simples festa mensal. Luiz descolou alguns canais de produção, fez alguns contatos, e começou a pensar em distribuição. Um passo grande – que poucos produtores ousam arriscar.

De 2009 até hoje, o selo já colocou 14 artistas brasileiros em vinil. Todos prensados no Reino Unido. Graveola e o Lixo Polifônico, Dead Lovers, Lucas Santtana, Tulipa Ruiz, Fusile, Karina Buhr… O lançamento do 15a artista, um compacto do BNegão e os Seletores de Frequência, rolou agora em Dezembro, no Granfino, em Belo Horizonte. Também foi comemorado o aniversário de três anos do selo.

Essa conversa com o Luiz rolou em uma terça-feira de chuva, no nosso estúdio. Além de saber da história da Vinyl Land, falamos de Londres, da cena independente brasileira e, claro, da Indústria. Luiz é um sujeito gente boa, de conversa tranquila. Faz parte aí de um pessoal que sabe avaliar legal o momento em que o cenário cultural se encontra. Não assume muitos partidos e não parece dimensionar a sua importância para o crescimento da cidade – e de muitos artistas brasileiros – nos últimos anos. Mas, não fosse por ele, essa tal Cena Independente de Música estaria atrasada em pelo menos 33 rotações por minuto. Sente só:

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Então, me fala um pouco do começo da Vinyl Land.

Então, mais ou menos em 2002, quando eu ainda era dono do Lugar, tava começando a pintar muito DJ novo. O pessoal tava começando a ter acesso aos lançamentos com mais facilidade. O acesso ao mp3 ficou mais fácil, copiar CDs…  Você não precisava mais comprar discos para ser DJ.

Criamos a festa Vinyl Land, lá no espaço, para valorizar o outro lado, de quem investe e pesquisa. Você pode até copiar o seu DJ favorito, e tal, mas se tá afim de tocar o que ele toca, em vinil, vai ter que correr atras. A primeira edição foi em 2003. Uma festa voltada exclusivamente para o vinil. Deu muito certo.

Bom, daí, depois que o Lugar fechou, em 2003, a gente fez mais umas duas ou três edições da festa Vinyl Land, e acabei indo morar em Londres. Foi lá que passei a mexer com esse negócio de discotecagem com mais vontade. Comecei a comprar mais discos também e, naturalmente, fiquei com vontade de tocar essa nova música independente brasileira. E mesmo até coisas comuns, tipo Los Hermanos.

Mas não tinha como tocar nas festas, porque os discos simplesmente não existiam. O selo surgiu disso.

Em Londres eu via vários discos saindo. Trabalhei em um selo, e acompanhava as notícias de vendas de discos aumentando. Claro, era muito pequeno ainda. Mas, em todo caso, era um crescimento. E toda semana eu comprava vários compactos novos.

Daí, a coisa foi bem espontânea mesmo. Vim para o Brasil, conversei com o Gabriel, do Autoramas, que tinha alguns compactos, o pessoal da Monstro, também, que lançou muita gente em disco de meados dos anos 1990 até meados de 2000. Aí, em BH, conheci o Dead Lovers, fui num show, achei ducaralho, e falei: “pô, eles mesmo”. Uma banda próxima. Conversei com eles, falei da ideia, eles acharam legal. Aí fiz os dois primeiros e lançamos em 2008. Dead Lovers e Autoramas.

Lançamos o Autoramas em 2008 e o Dead Lovers veio em seguida, no começo de 2009. Inclusive, foi um dos primeiros shows de bandas verdadeiramente autorais no Studio Bar, que não fosse essa onda rock n roll, Falcatrua, rock n roll mais clássico, e tal. Foi ducaralho, deu tudo certo, os discos venderam bem… Aí começou a história mesmo.

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(Os dois primeiros lançamentos do selo. Compactos do Dead Lovers e Autoramas)

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Hoje a Vinyl Land é só você, né? É quase uma guerra, para um homem só. 

É. Queria muito ter alguém comigo, mas até hoje não rolou. Precisava era de uma pessoa para ficar na internet, divulgar, comunicar… Isso toma muito tempo. Nas próprias vendas, também. Você tem que estar sempre ali, cutucando as lojas e tal. Faço tudo, desde o lançamento, assessoria de imprensa, internet, facebook, discotecagem…

Mas esse é o estado da música mesmo. Lá fora está assim também. Os selos independentes estão todos enxutos. Ha dez anos você até poderia encontrar dez pessoas trabalhando em um selo microscópico. Hoje enxutou pra caralho. As próprias lojas de disco que estão abertas, é porque sabem trabalhar certinho, não vacilam.

Em Londres, que é a mecca, todo dia fecha loja. Vi só uma loja abrindo, no período que em que morei por lá.

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E como que o selo foi girando? Os artistas te procuram? Você que faz o corre?

Eu mandava alguns email, conhecia por algum motivo. O pessoal ficou sabendo e começou a me procurar também. Aí depois foi caminhando.

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Qual é a tiragem que normalmente está sendo feita?

É sempre uma onda mais pontual mesmo. Se der certo fazemos mais. Normalmente, LP são 500 cópias, compactos, 350. Dá um giro no negócio. Um disco que vendeu muito no país é o do Criolo. Conseguiram esgotar mil cópias. Já tem mais apelo. Saiu pela banda mesmo, no lançamento.

Mas, geralmente, as prensagens giram em torno disso. Mesmo as da Polysom (única fábrica de vinil da América do Sul). Quinhentas cópias é o mínimo que dá para fazer um empreendimento sem ficar com o disco parado.

Então, nesse meio tempo, começou uma galera a se ligar, o vinil voltou em voga, muitas matérias falando a respeito, a própria Polysom voltando. Eles tem uma assessoria do caralho, se você for ver. Foram até no Jô (Soares).

Aproveito sempre para comprar os discos que outras bandas brasileiras estão vendendo. Quando monto minha barraquinha nos festivais, igual rolou agora em Belém, no (festival) Se Rasgum, coloco tanto os discos da Vinyl Land como dos demais artistas que tenho. Criolo, Autoramas, o LP que não é meu…

Agora o trabalho é com essa distribuição, que está começando a acontecer. A barraquinha cheia, gorda, interessa mais.

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(Vinyl Land prensando o pessoal do Rio e Bahia. LPs do Do Amor e Lucas Santtana)

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Você que acompanha essa cena de perto ha algum tempo, dá para dizer em que momento a música brasileira está? Será que há mesmo um crescimento? Ou será que a gente vive uma certa estagnação?

Tem vários estágios… Pega a Tulipa, por exemplo. Ela está na mídia, na MTV, Rock in Rio… Circulando, fazendo shows… Só que o negócio ainda tem um certo teto, ali, né? Chega uma hora ali que ele para, não explode. São poucas as bandas que estão dominando o Brasil hoje, se você for pensar.

Mas é um nível levemente satisfatório, que alguns desses artistas independentes estão alcançando. Eles tão girando uma grana, todos ali são músicos, na banda dela. Nas outras também, do Lucas Santtana, Do Amor, muitos ali são só músicos. Curumim tambem. E a galera, você vê, eles tocam sempre em outras bandas. Tão sempre fazendo um corre. O cenário de música não está parado, isso é uma certeza.

Mas como que você imagina esse cenário daqui dois, três anos? Será que vai estar bem diferente? Crescer? Tomar tudo?

Não sei se dá para ficar maior do que estão. O problema não está mais nos artistas, mas talvez no público mesmo. Você vê que existem dezenas de festivais rolando no país, muitos artistas circulando… Mas ainda existem algumas coisas erradas. Nem todo mundo ganha grana. E, com isso, não consegue viver só disso…

Em teoria, no meu próprio Selo, era para as coisas andarem um pouco mais rápido. Se eu conheço, pessoalmente, 100 pessoas que compram vinil, deve existir pelo menos 5mil no Brasil com as mesmas aspirações. Uma tiragem de 500 cópias no mundo? Isso é um pingo no mar. Muito pouco.

   

(Luiz prensando as garotas de Pernambuco e São Paulo. Karina Buhr e Tulipa Ruiz)

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‘Tem um crítico em São Paulo dizendo que, o problema da cena de música de lá, é que existe alguns artistas acostumados com a grana que recebem tocando em Sescs, e em outros espaços que rolam grana do governo.  E, por conta disso, acabam não correndo atrás de aumentar o público…

Não acho que esses artistas não estejam correndo de aumentar o público. Pelo contrário, acredito que eles estão no corre direto e fortemente e, por isso, conquistaram esse espaço de forma legítima para tocar em canais e festivais com grana. É mérito deles e acho que eles estão supercertos de tocar e pegar o cachê legal. Todos merecem isso e muito mais.

Tudo isso se deve à luta de pessoas e produtores chaves, do governo etc. Sorte nossa que, hoje, no Brasil, existe lei de incentivo e esquemas bons com cachê e estrutura, que viabilizam diversos projetos fodas e fundamentais, que de outra forma não aconteceriam. Claro que tem coisa para melhorar, mas isso sempre tem.

O problema é quando se cria certos vícios. No público, que espera um show foda por um preço barato ou de graça; e nos artistas (na verdade mais nos empresários de artistas mesmo), que querem receber o maior cachê possivel, é claro! Estão mais que certos.

A questão é que, ao mesmo tempo que as leis de incentivo beneficiam muita gente, produtores independentes, como eu, ficam um pouco na mão. Por exemplo, o artista vem e toca no Conexão Vivo, no Parque Municipal, com ingressos a R$5, R$10. Evento cheio, lindo, bem movimentado, palco, estrutura… Pô, todo mundo pira.

Mas, agora, na hora deste artista vir para o independente mesmo, ter que fazer um show a  R$30 aqui em BH, nem sempre traduz no público. Um porque a galera tá acostumada a ir lá na Praça do Papa e ver o show do artista preferido do momento de graça. Dois, porque o artista, que toca em Sescs e em festivais de lei de incentivo, fica esperando receber o mesmo cachê quando vem para o independente mesmo. Só que a conta não fecha. Não dá para colocar duas mil pessoas em um evento desse, para a conta fechar.

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(Pessoal de Belo Horizonte prensado em compacto. Graveola e Fusile).

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E como que você pretende se virar, nesse contexto? Qual é o balanço que você consegue fazer?

Estamos no caminho, eu acho. Já são três anos de selo, com 18 lançamentos, o que, para um selo independente, eu acho bom pra caralho. Uma media de 6 discos por ano, com artistas relevantes.

Gostaria de manter esse foco da cultura nova brasileira. Não penso em trabalhar com gringos. Os gringos já tem seus canais para lançar discos.

A vontade é estar presente lá fora cada vez mais também. O nosso site promete um pouco disso. E tem rolado. Mesmo com pouca divulgação, já tivemos pedido do Japão, e de lugares que nem sei de onde que vem. E o mercado, pra mim, tem que ir muito além do Brasil. Não dá para ficar contando só com o que rola aqui.

Eu fico animado porque tem muitas outras bandas lançando discos também. As bandas estão começando a enxergar que isso é uma boa. Você fazer um compacto, fazer tudo direitinho, e soltar ele no dia do lançamento de um álbum mesmo. Botando no início do processo, a grana volta em seis meses, e você parte pra próxima. As bandas que tem essa pegada já estão fazendo.

E isso até me alivia uma nóia de tentar lançar tudo que eu gostaria. Porque isso eu nunca vou conseguir, né? Rs.

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FELIZ VORKO

(Os astronautas: Matheus, Daniel e Lucas)

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Não sei exatamente quando surgiu o meu interesse pela agência de design Vorko, de Belo Horizonte. Não sei se foi por conta de algumas fotos que via de um escritório deles, logo quando entrei no Instagram; se foi durante algum processo de criação de capas e ilustrações para a Revista Ragga, no ano passado, ou se foi quando fiquei conhecendo – e abracei – um toyart inflável verde, desenhado por eles, chamado Bubble. Provavelmente foi por causa do Bubble. Porque lembro até de a gente comentar por aqui em comprar um para poder soltar nas quebradas em que a gente discotecava.

Certo é que, de 2010 para cá, acabei acompanhando o trabalho da agência mais de perto. Primeiro através dessas duas ou três capas que eles desenvolveram para a Ragga, do jornal Estado de Minas. Uma trazia um cachorro vestido de astronauta. Outra, uma mão de ouro segurando um coração. Comecei a seguir a Vorko no Twitter, e descobri uma das “comunicações de empresa” mais brilhantes desta cidade. São notícias e comentários aleatórios divertidos e descompromissados. Sobre música, design e cerveja. E o segredo parece simples: sinceridade.

A Vorko é formada por três designers multifuncionais e multitarefados. Daniel, Matheus e Lucas. Segundo Matheus, “três pessoas que fazem tudo, desde ilustrações, grids e 3D, até o cafézinho, a limpeza do escritório e a pintura das paredes”. Olhando de fora – e acompanhando pelas mídias sociais – dá para sentir que todo o trabalho deles está na mão. Quer dizer, fica claro, sempre, a vontade de fazer acontecer que a Vorko tem.

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Eu chamei eles de loucos, em alguma parte desta entrevista, e não sei se o Lucas entendeu errado. Hehehe. Desconheço bastante o cenário do design, mas como jornalista – e jornalista freelancer – sei bem qual é o corre de tocar o próprio negócio, dar as caras, e assumir o trampo que é lidar com clientes inseguros e engravatados. As vezes, largar um emprego seguro para acreditar no próprio trabalho e, claro, no trabalho coletivo, pode ser uma loucura desvairada.  Mas uma loucura que todos nós deveríamos arriscar.

Porque o que importa mesmo é o resultado, em todo caso. E se for para falar nisso, é bem possível que esbarremos em outro adjetivo, levantado pelo Lucas: Ousadia.

E, pensando bem, talvez seja esta a qualificação que me despertou o interesse pela Vorko. Eles não se assumem como coletivo, mas também dedicam corpo e alma ao trabalho que desenvolvem. “A separação entre o profissional e o pessoal nunca existiu para nós”, aponta Daniel. E é isso que torna o trampo da agência tão particular. É feito por pessoas, essencialmente. E, o mais importante, a comunicação da agência também. Olha só.

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Então, bacana. Vamos viajar nisso então. Só para orientar, deixa eu saber uma coisa, quantos são vocês da Vorko? 3? Não lembro bem. 

Sim, são 3.

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Qual é a viagem da agência? Quando é que vocês pensaram que deveriam começar esse movimento, trabalhar fora de casa, pagar aluguel, ter reuniões com clientes estranhos…?

Daniel: A princípio, o Matheus e eu trabalhávamos juntos numa mesma agência de publicidade. Eu era “diretor de arte” e o Matheus, estagiário. Contudo, ao longo do tempo em que fomos trabalhando juntos, percebemos o potencial que cada um tinha, independente dos cargos que ocupávamos. Então, passávamos tardes inteiras trocando sites de referências de trabalhos e profissionais que admirávamos. Em um dia desses de inveja branca, o Matheus fez a pergunta fatídica: “Por que nós só ficamos admirando o trabalho destas pessoas em vez de fazer também?”. Foi aí que a ficha caiu.

Trabalhando em uma agência de 9h às 19h não teríamos fôlego pra pensar em projetos autorais fora do expediente. Então, na impetuosidade inerente aos jovens cheios de vontade, fechamos o ciclo de empregados e enfiamos o pé no empreendedorismo (ou  na jaca, chame como preferir). Largamos o trabalho e tudo que tínhamos era o futuro a nossa frente e uma sede enorme de fazer tudo virar presente. Entramos em contato com um outro amigo, o Lucas — também pelo talento — e convertemos mais um. Estava formada a Vorko. Três pessoas muito diferentes, com estilos quase opostos, mas com objetivos bastante similares. A viagem estava só começando.

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(Duas das capas da Revista Ragga, desenvolvidas pela Vorko, que citei ali no começo do texto)

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Tinha – e tem – espaço em Belo Horizonte para desenvolver as ideias de vocês? Os clientes estão correspondendo na loucura? Ou tá sendo preciso moderar?

Daniel: Aqui as coisas já se misturam de uma maneira diferente e nós demoramos quase 3 anos pra perceber isto. A princípio, em nossas cabeças enormes, uma coisa era trabalhar para o cliente (insira aqui um clipart de um cara de terno) e outra eram os trabalhos ditos autorais. Fazendo uma auto-análise forçada nós nos demos conta de que quem faz a oportunidade é justamente quem a quer. Se nós ficássemos reclamando dos clientes que não queriam projetos livres o bastante para o deleite do nosso ego, invariavelmente não faríamos nada. Moderar não é bem o verbo. Adequar, talvez, seja o mais correto neste âmbito mercadológico. Você pode ser procurado pelo seu estilo de trabalho ou também pode se adequar a qualquer estilo. Tudo depende do foco. Em Belo Horizonte existe um mercado enorme e inexplorado, clientes cheios de anseios mas com pouca coragem. Mas nós acreditamos que o primeiro passo deve vir do lado de cá. Os criativos é que devem mostrar uma gama maior de possibilidades aos seus clientes em pontencial. Reclamar não leva a nada.

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Temos visto um crescimento expressivo dos coletivos de criação no Brasil. Muitos fotógrafos, designers, filmakers e comunicadores se juntando, e unindo as aspirações para construir algo juntos. De fora, vocês da Vorko me parecem conseguir andar por um campo mais mercadológico, mas, ao mesmo tempo, tem uma loucura meio de Coletivo. Uma vontade de fazer acontecer com as próprias mãos. É isso mesmo?

Matheus: Acho que o que acontece é que as pessoas que trabalham com criação querem sempre criar mais, desenvolver imagens diferentes das que são veiculadas no mercado tradicional. Para fazer isso o caminho mais natural é ter o próprio negócio, seja ele um coletivo ou uma empresa formal – como você colocou, fazer com as próprias mãos. Acredito que o nosso diferencial é que somos três pessoas que fazem tudo, desde ilustrações, grids e 3D, até o cafézinho, a limpeza do escritório e a pintura das paredes – e sempre deixamos isso muito claro, por isso um pouco da ideia de coletivo. Já uma empresa geralmente passa a imagem de ter cargos mais específicos, uma separação maior das habilidades, onde tudo se mistura de uma forma mais planejada. No final das contas o importante é ter um trabalho final de qualidade, e é isso o que tentamos fazer.

Lucas: Desde sempre entendemos por “coletivo” um espaço que serve aos seus integrantes como base para criação de projetos individuais ou em conjunto, mas que de certa forma preserva a individualidade de cada um. Ao mesmo tempo, a palavra carrega um estigma negativo aos olhos dos consumidores, que é a de falta de profissionalismo, e falta de compromisso com tempo e dinheiro. Acreditamos que o que fazemos é a nossa profissão, e que devemos saber administrá-la, como qualquer outra empresa o faria. Não acredito, entretanto, que nosso trabalho seja, ou deva ser, louco. Isso me soa insensato. Ousadia (no bom sentido) deve estar presente em qualquer profissão.

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Acompanho um pouco da rotina daí pelo Instagram. E acho bacana o uso que vocês fazem das mídias sociais, especialmente no Twitter, que invariavelmente aparecem sugestões de matérias estranhas. As publicações da Vorko atingem muito mais do que estudantes de design e clientes da agência. Por que é interessante fazer esse tipo de comunicação? Como é esse processo?

Daniel: Nós amamos o que fazemos. A separação entre o profissional e o pessoal nunca existiu para nós. Em alguns momentos de crise de identidade chegamos a tentar separá-los, admitimos. Porém, como o processo de crescimento de uma empresa tende a ser orgânico, nós fomos mudando a nossa maneira de pensar o trabalho. Não tem como sermos robôs no trabalho e pessoas fora dele. Nós somos o que fazemos e isso é o que define a nossa empresa. Portanto, isso define também a nossa presença online. No twitter, no facebook ou no flickr somos pessoas conversando direto com outras pessoas. Nosso objetivo não é ter números nos seguindo. Nós queremos através das mídias sociais criar um canal aberto — sem frescuras — com as pessoas que estão nos acompanhando.

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Vi pelo Instagram que vocês estão com um espaço criativo, a Vorko Headquarters. Qual é a ideia?

Matheus: No momento estamos com esse espaço bem legal que ainda não tem nome, a única coisa que temos certeza é que é a base da Vorko, por isso a localidade no Instagram! Aqui é uma casa no bairro Floresta com bastante espaço para novos experimentos, dividimos o espaço com o estúdio de design Cabrones – do Pil Ambrósio e Pedro Ivo (amigos que começaram a trabalhar juntos no escritório antigo da Vorko) – e com os fotógrafos Breno Mayer e Tiago Nunes. Temos planos para oferecer alguns workshops futuramente, trabalhar com materiais não convencionais para a gente e muitas outras idéias, mas isso tudo tomará uma forma mais concreta em 2012!

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(Cartaz da ONU, desenhado pela Vorko)

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Esses dias eu tava lendo um crítico musical brasileiro falando que a treta do Brasil é que, a partir da redemocratização do país, lá pelo final dos anos 80 e começo dos 90, houve um certo consenso da Cultura e da Música em se defender tudo aquilo que é feito aqui. Uma tentativa desesperada de se criar uma Cultura Nacional Contemporânea. Isso rola bastante, na cena independente de música. Todo mundo é amigo de todo mundo. Todo mundo acha bonito o que todo mundo faz. Isso acontece também no meio do design, aqui no Brasa?

Matheus: Eu espero honestamente que não seja bem assim. Quero que me falem se meu trabalho não está bom, quero ser valorizado pela qualidade e não pelo simples fato de ser brasileiro. Acho legal sim defender a presença dessa cultura regional, valorizar também as tradições imagéticas – mas não pode ser essa punheta toda. Acredito que essa Cultura Nacional Contemporânea é criada naturalmente, não precisamos premeditar nada, senão o resultado fica falso demais, aquele Brasil para gringo ver: verde, amarelo e capim dourado. Já todo mundo ser amigo de todo mundo não dá pra evitar, são pessoas que transitam pelo mesmo meio, frequentam os mesmos eventos, tem o trabalho publicado nos mesmos lugares! Temos ligações com pessoas de vários lugares do Brasil, mas não é nenhuma tentativa de revolucionar o design brasileiro, juro.

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(Segundo Daniel, esse vídeo mostra bem o que a Vorko pensa sobre a vida)

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O design é um campo novo do pensamento humano, embora desde sempre existam sinais de que o homem se interessava por formas e desenhos. Qual é a onda disso? Quando foi que o mundo se deu conta que precisava de cursos de design nas universidades?

Matheus: Na verdade o design existe faz muito tempo, só tem esse nome há pouco, por isso é tão difícil de classificar o que está dentro desse novo conceito ou não. A onda é que o ser humano precisa se comunicar, sempre precisou. Agora que todos fazem parte dessa aldeia global, onde fica cada vez mais rápida a troca de informações, o design se faz mais importante do que nunca, é ele que facilita o intercâmbio de idéias. Os cursos de design começaram assim que foi permitido aos humanos que fizessem parte de uma humanidade só. As pessoas tiveram que entender rápido essa quantidade global de significados – e tentam entender até hoje, por isso os cursos nunca serão os mesmos.

Lucas: Acredito que a atividade que hoje chamamos de design acontece essencialmente há muito tempo, e quem quer que tenha criado o termo, o fez na tentativa de formalizar essa atividade. Hoje, em 2011, existem milhões de outros fatores que influenciam o uso das nomenclaturas, como por exemplo o valor (em dinheiro) que elas carregam. As primeiras escolas européias de design tinham o objetivo de disciplinar o cara e agrupar todo mundo que tivesse vontade de aprendar a profissão de projetista. Os cursos atuais apresentam infinitos desdobramentos de termos e, acho que no final dos contas, o segredo reside em se aprofundar na essência e acreditar nas suas crenças.

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A Vorko é uma agência feliz?

Ô!

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GLASSER, DEPOIS DA CHUVA

Então, para dizer a verdade, só puxamos a Glasser para um canto do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, porque queríamos ouvir o que ela sabia sobre o… The xx.  A gente não sabia muito mais sobre ela do que a turnê que eles fizeram juntos, na Inglaterra, há mais ou menos dois anos.

E, bem, também conhecíamos um remix de Jamie xx para uma de suas músicas, a bonita Tremel (Entrou até na Trouble Radio #13, de Londres). Quando perguntamos para a garota sobre a música, nesta entrevista realizada durante o Festival Eletronika, ela lançou uma frase sobre o produtor do xx que valeu por toda a conversa.

Glasser é a orquestra musical de uma pessoa só, a americana Cameron Mesirow. E, assim que sentamos em um vão aberto do Palácio das Artes, em uma sexta-feira de chuva, logo deu para sentir que ela também deveria ser uma mulher de poucas palavras. Ria muito. E, claro, divagava bastante.

Falou de Nova York, the xx e de um sujeito que a gente gosta muito, por aqui, o Sampha. Isso depois de um show maravilhoso e de cores bem bonitas. Músicas do único álbum lançado, Ring, de 2010, e também do EP de estreia, Apply, de 2009. Sonoridades minimalistas, silêncio calculado e letras íntimas. Bem Londres.  Ambos os álbuns foram lançados pelo selo True Panther, o mesmo da banda californiana Girls.

No palco, ela conta com a produção e os barulhos e graves do mago Van Rivers. O mesmo maluco que produziu os últimos álbuns do Fever Ray e Blonde Redhead. Aqui, Cameron aparece sozinha. Sentada no degrau molhado de chuva, e com um gato preto por perto, a ronronar. Viajando. Tranquila.

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Então, como foi o Rio?

Foi demais. Cheguei na quarta-feira, passei o dia inteiro lá. Foi muito rápido, quero passar mais tempo. Achei incrível estar lá. Senti que estava de férias e depois eu me lembrei que tinha um show em algum lugar…na minha mente.

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Fale um pouco sobre você, onde nasceu, onde viveu, em que lugar você se encontra agora…

Bom, eu já vivi nas duas costas dos Estados Unidos, mas nunca no meio. Hahaha. Meus pais são pessoas muito criativas, que me criaram para apreciar criatividade, arte, música e… Um certo estilo de vida meio boêmio. Mas ao mesmo tempo um pouco tradicional.

Eu não fazia música até ter mais ou menos 21 ou 22 anos e, mesmo nessa época, não fazia isso com muita seriedade. Talvez isso só tenha mudado há quatro anos, quando comecei a fazer música como “Glasser”.

Agora tenho um disco lançado, tenho viajado pelo mundo há dois anos, e moro em Nova Iorque quando não estou na estrada.

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É engraçado, porque eu conheci você através de Jamie xx, na verdade. Londres, né. Talvez outro rolê.

Ô, claro.

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De onde vem exatamente essa conexão entre você e o The xx?

Eu fiz a minha primeira turnê com o xx, no Reino Unido, abrindo shows deles. Minha manager é casada com o manager deles. Então foi fácil que a gente acabasse se aproximando.

Isso, na verdade, foi depois que o Jamie fez o remix. Eu nem conhecia Jamie xx, de nenhuma maneira, quando ele fez esse remix. A música simplesmente caiu na minha inbox, um dia.

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Ele te mandou?

Não acho que foi. Provavelmente não. Jamie xx é um homem de poucas palavras.

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Você ainda acompanha alguma coisa dessa cena de Londres. SBTKRT, James Blake…

É, eu conheço eles. Conheço bem o Sampha, que canta para o SBTRKT. Ele até chegou a abrir alguns dos meus shows nesta última turnê europeia, no inverno passado.

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Ele deveria lançar um álbum dele logo.

Eu tenho certeza que ele vai. Ele é fantástico, um cara muito talentoso.

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Jamie xx é um homem de poucas palavras.

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Como é essa movimentação em Nova Iorque. Existe? Essa sonoridade inglesa…

Eu acredito que existem muitas cenas diferentes acontecendo em Nova Iorque. Mas existe uma certa, e específica, cena gay, que envolve um universo de música e arte, que acho realmente boa. Tem uma banda que se chama Teengirl Fantasy, eles estão no mesmo selo que eu, e…

É. Tem muita coisa diferente acontecendo em Nova York, é difícil de dizer… O que é bom de Nova York é que o universo das artes é diretamente conectado com o universo da música, muito mais do que acontece em Los Angeles ou em Londres. E não vejo porque esses dois mundos não podem se conectar com mais frequência. Eu gosto quando eles se ligam.

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Como era a Califórnia?

Califórnia é incrível. E, na verdade, não é muito diferente disso aqui, do Brasil. Isso é muito parecido. Eu amo a Califórnia. Assim como o Brasil, as plantas são enormes, o oceano é maravilhoso, a paisagem é incrível… É um bom lugar para ser criativo. A vida é mais… devagar, sabe?

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Sente saudades, não?

Claro. Sinto saudades todo o tempo. É muito diferente. As pessoas costumam perguntar se prefiro Nova York ou Los Angeles. E eu não sei se consigo dizer… É muito diferente. É tipo laranjas e maçãs Hahaha.

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Você está na estrada há dois anos, agora. Como tem sido? Aguentaria mais dois anos?

Acho que quando acabar esta turnê, vou trabalhar no novo disco. Vou pra Austrália por um tempo, fazer alguns shows… Preciso trabalhar em um novo disco, porque tenho pensado nisso o tempo todo.

Quando você está trabalhando em algo como isso, e é emocional, é pessoal, não é um momento no qual você quer estar na frente de pessoas. Você quer é ficar sozinho com os seus pensamentos e entrar no level mais profundo de meditação dos seus pensamentos.

Mas, por agora, eu continuo gostando de fazer shows. Eu amo estar na estrada, conheci lugares maravilhosos, como o Brasil, China, Islândia, Polônia, Eslovênia… É ótimo, incrível. O meu trabalho me leva para lindos lugares, novos lugares. Quero conhecer o mundo.


SILVA, UM BRASILEIRO

Certo. Já faz algum tempo que a cena brasileira de música independente vem sendo discutida por blogueiros, jornalistas, jornalistas duvidosos e críticos de fim de semana, que despejam na internet boa parte de suas divagações e aspiracões sobre os mistérios do planeta. E, conforme vem se tornando recorrente notar, raramente se tem notícia de uma crítica de disco nacional que não endosse o trabalho do artista independente em questão. Todo mundo anda defendendo todo mundo, veja bem.

Porque de uns anos pra cá, muita gente resolveu tocar o mesmo barco, em uma tentativa desesperada de se construir uma certa nova identidade da cultura brasileira. Segundo o jornalista Álvaro Pereira Junior, em um texto para a Folha de São Paulo, o problema da Cena de São Paulo (Tulipa, Thiago Petit, Criolo…), por exemplo, é que todo mundo se tornou amigo de todo mundo. Todo mundo é meio músico, meio blogueiro, meio crítico, meio jornalista, meio…

E, no lugar de crescer, há quem veja essa aproximação entre o Jornalismo e a Cultura como um problema sério para o real desenvolvimento da Cena. Porque cria-se uma falsa ideia de que todo mundo está produzindo no caminho certo, quando, na verdade, havemos de concordar que a Cena Independente do Brasil anda um tanto estagnada. Claro, muitas tem sido as investidas dos artistas, de produtores e de coletivos de incentivo à cultura. Contudo, ainda esbarramos em um problema particular: falta público. Dinheiro. Ou ainda, faltam respostas.

Lúcio, de Vitória, é uma dessas respostas. Primeiro pela sonoridade do EP que o capixaba de vinte e poucos anos colocou na internet há algumas semanas. O disquinho SILVA, com o nome que ele pretente usar daqui pra frente, apresenta cinco faixas que desfilam por uma comunhão de gêneros e estilos. Tudo fruto de um processo de educação musical que vem desde a sua infância, adolescência e, mais recentemente, uma estadia de um ano na Europa. “Lá eu toquei na rua, em pubs, festivais e até em casas de burgueses da cidade que gostavam de mostrar a tal banda exótica da rua para os amigos ricos do sul da França. Voltei cheio de ideias na cabeça e conheci pessoas da minha cidade que nem pensei que existiam”, conta, nesta entrevista realizada por e-mail, há alguns dias.

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E a resposta mesmo de Silva é, bem, sobre essa falta de público que as bandas brasileiras estão enfrentando. Além de concordar que o Jornalismo deve ser mais distante da produção cultural, ele ainda aponta que o problema está é na raiz da coisa. “Não adianta dizer que o Brasil é um país de ritmos diversos e pessoas criativas, se não existe uma escola e uma educação musical bem feita. As pessoas vão ter ideias e depois não saberão o que fazer com elas”. Ou seja, de nada adianta continuarmos insistindo em buscar problemas nas bandas – que, na verdade, estão mesmo mais preparadas do que nunca. Os nossos olhos, e muitas das nossas discussões, devem se preocupar um pouco mais com a… educação. Ou com o governo.

Bom, fato é que Silva é um disco muito bonito, mais bonito do que muita coisa que foi lançada no Brasil, nos últimos anos. Gravado em casa, o projeto ainda precisa de uma banda para poder tomar forma física. E tem muita chance de contornar a estagnação notória que agora estamos dando conta. Um, porque é um trabalho leve, puritano e calculadamente arriscado. Dois, porque tem uma ambição própria, desde a primeira etapa de sua concepção. Seguindo conselho do amigo e co-produtor do EP, Lucas Paiva, Silva convidou o mesmo produtor que masterizou o álbum de James Blake, o inglês Matt Colton, para integrar a finalização do trabalho.

O que não quer dizer que tudo aconteceu de uma maneira quase despretensiosa, é claro. Apesar de “nada ter mudado muito”, Lúcio não só acabou mudando de nome, em menos de um mês pós-lançamento do Silva, como também tem respondido dezenas de entrevistas, convites de gravadoras e possíveis cartas de algumas fãs já apaixonadas. E o motivo para tanto interesse – e toda a expectativa que deve vir em seguida – você vai entender quando ouvir o disco. Ou depois de ler a entrevista abaixo.

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Fazem poucas semanas que o seu EP está na internet. E parece que já circulou bastante, muitas entrevistas, downloads, discussões. O que mudou na sua vida?

Não mudou muita coisa, exceto pelos convites de shows que ainda não posso atender, gravadora que manda contrato pra eu estudar e ainda me bate um certo medo quando vejo aqueles números todos. Fora isso, continuo tendo que estudar meu concerto de violino que tenho que apresentar agora em dezembro. Conciliar isso com a pressão de gravar um disco no início do ano que vem não é fácil, mas isso tem me mantido bastante ocupado.

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Quem era o Silva antes deste EP? De onde veio, aonde tocava, com quem tocava?

O Silva era o Lúcio que não sabia que nome usar para lançar suas músicas e resolveu usar o nome do meio. Bem, eu sou de Vitória, nasci e morei aqui a vida toda. Tenho estudado música desde pequeno e sempre estive envolvido com isso de alguma forma: orquestra, banda de amigos da escola etc. Passei a adolescência por aqui, produzindo trabalho de amigos e envolvido com a música da faculdade, compondo em casa, mas sem mostrar nada a ninguém. Em 2009, decidi passar um ano na Europa, onde aprendi muito com outros músicos amigos e ampliei minha influências musicais. Lá eu toquei na rua, em pubs, festivais e até em casas de burgueses da cidade que gostavam de mostrar a tal banda exótica da rua para os amigos ricos do sul da França. Voltei cheio de idéias na cabeça e conheci pessoas da minha cidade que nem pensei que existiam, como o André Paste, que me incentivou bastante a fazer esse trabalho.

(Na Europa, em 2009, Silva tocava em quebradas assim)
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Você acompanha a cena independente brasileira de perto? Alguma movimentação te interessa mais? A Nova MPB de São Paulo, de repente?

Eu não acompanho muito, mas tenho ouvido algumas coisas muito boas. O som novo brasileiro que eu mais gosto é o da Céu. Se puder chamar o som dela de nova mpb, então eu gosto da nova mpb de São Paulo.

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Tenho conversado com algumas pessoas do meio, como o Tatá Aeroplano, do Cérebro Eletrônico, e também o Graveola e o Lixo Polifônico, banda boa aqui de Belo Horizonte, e há assim um certo consenso de que a Música Independente Brasileira cresceu muito nos últimos anos. Mais visibilidade, mais shows, mais artistas… Mas, ainda assim, quando você pára para analisar, vê que muita coisa ficou estagnada. Dá uma sensação de que ficou faltando um próximo passo. Os artistas indies tomarem o poder. a Mídia. Tem a ver isso, ou estamos viajando?

A música independente cresceu mesmo, assim como o número de pessoas que usam a internet e as redes sociais. A quantidade de artistas bons que têm feito seus discos em casa e alcançado um público pela internet tem sido cada vez maior.

Se tratando de Brasil, acho que nós ficamos um pouco para trás quando o assunto é educação em geral, ainda mais se falarmos de educação musical e acesso a instrumentos de qualidade. Ter um bom professor de música custa caro e comprar instrumentos decentes por aqui é um luxo para poucos. Acho que isso contribui bastante para essa estagnação.

Não adianta dizer que o Brasil é um país de ritmos diversos e pessoas criativas se não existe uma escola e uma educação musical bem feita. As pessoas vão ter ideias e depois não saberão o que fazer com elas. Quando vejo os equipamentos que até mesmo bandinhas de garagem gringas têm acesso, sinceramente, me dá um desânimo enorme. Digo isso porque não adianta só a mídia abrir portas para artistas independentes, como eu. O nível das produções precisa subir em todos os aspectos. Experimenta comprar um bom sintetizador aqui no Brasil e depois me conta quanto você pagou por ele, é bizarro!

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Como você vê o trabalho dos jornalistas brasileiros hoje, em se tratando de música? Falta estar mais presente? Ou, talvez, estar mais distante?

Fico com a segunda opção. Acho que existe um medo de criticar para valer sim, já que todo mundo é tão conectado. Mas não acho que isso seja o pior. Pior mesmo é ver tanta gente querendo ser crítico. Virou moda. Compram os “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” e acham que já podem criticar tudo o que ouvem, como grandes entendedores de música. Uma coisa é ser ouvinte, outra coisa é saber analisar uma estrutura, timbre, estética. Não sabem o que é um sol maior, só conhecem a história da música de Beatles para cá e já acham que podem mudar o mundo com textos prolixos. Me desculpe a acidez, é que isso me incomoda. Não sei onde vai parar essa mania de dar nota à arte: “esse disco é nota 7.2″. Qual the hell é o parâmetro?

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Tinha muito jornalista aí destraído, e você surgiu meio que de repente, um tipo de iluminação, trazendo um caminho legal para a música. Tem gente falando que o Silva era o que a música brasileira precisava, neste momento. Confere?

Haha não sei, mas fico feliz com o elogio.

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(Clique na imagem para começar a baixar o disco. É de graça, e não demora)

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Talvez esse deslumbramento com o Silva venha do fato do seu interesse em mixar muitas influências, trazer um pouco de sonoridades gringas também. O que você consome de música? Existe um interesse seu pelo dubstep inglês, certo?

Eu cresci numa casa que ouve bastante música erudita, mas nunca gostei de ficar só nisso. Sempre deixo o ipod com meus amigos para eles colocarem o que têm ouvido. Gosto de saber o que rola de novo, até porque minha formação me leva mais para o velho. Ultimamente tenho ouvido muita música eletrônica, cada vez mais apaixonado pelo sintetizador. Gosto de dubstep sim, daquele mais antigo e desse que tem acontecido agora também, mesmo que tenha ido para um caminho mais pop.

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Como que surgiu a ideia de convidar o Matt Colton para masterizar o EP? Você conheceu o trabalho dele a partir do James Blake?

O Lucas Paiva, meu amigo que produziu esse EP comigo, estudou engenharia de áudio em Londres e ouviu falar do Matt Colton por lá. Ele já masterizou um número grande de artistas que nós curtimos, Sadwell District foi o primeiro que eu vi e achamos que ele seria o cara certo. O James Blake não é o único artista grande que ele trabalhou, até Coldplay ele já fez.

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E é interessante você vir de Vitória, porque assim como BH, é uma cidade perto do eixo Rio/São Paulo, que não tem tanta visibilidade nacional. Como é a cidade? 

Eu sempre morei aqui e não tenho muito do que reclamar. Difícil foi sair da Irlanda e voltar pra cá, sem poder tocar na rua, sem aquelas pessoas de países diferentes. Mas amo meus amigos daqui e o visual da cidade é bem bonito, tudo é bem próximo e tranquilo. Acho que é um ótimo lugar pra produzir.

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Quais os planos agora? O Brasil conhecerá o Silva, ao vivo, só em 2012?

O plano agora é escrever mais músicas para um futuro disco e ensaiar para começar a tocar no ano que vem. Não faço ideia de como vai ser, porque nunca toquei minhas músicas ao vivo, mas confesso que estou bem empolgado.

PEDRO FURTADO, O IMAGINÁRIO, E O ESCRITÓRIO NA PRAIA

Como bem sabemos, nunca houve tanto espaço para se criar, partilhar e compartilhar informações entre pessoas de diferentes culturas e credos. A internet tem uma certa democracia meio desconexa e imprevisível, quase uma anarquia desesperada, onde qualquer um é livre para ditar as regras, os passos e os compassos. E não há tanta distinção de escolaridade, classe social, estado civil ou atestado de bons pretendentes. Vivemos em uma Babilônia de ideias e caminhos que se cruzam sem sentidos muito claros. Todo mundo é um pouco criador. Todo mundo faz fotografia. Todo mundo escreve poesia. Todo mundo tem uma opinião concisa sobre os mistérios que palpitam nos quatro cantos do planeta.

Certo. E é um tanto deslumbrante acordar, um dia, e pensar que é possível viver no meio disso. Ganhar dinheiro, pagar a pipoca no cinema, levar a família para passear em Barra Grande um dia, e ter tempo e conforto para assistir um filme do Godard na poltrona da sala. Tenho um amigo que compara esse cenário da internet com o Rio de Janeiro dos anos 1970. Tinha sempre muita gente na praia. Alguns estavam só de rolé, se vestindo bem, falando bem, e levando garotas para a cama. Outros, porém, aproveitaram da onda para poder constituir uma nova forma de mercado. Surfistas profissionais, managers, marcas especializadas e, sei lá, os malucos que vendem biscoito Globo para os banhistas de fim de semana.

Estamos em uma praia, de certa maneira. O mar é extenso e desamparado. E a analogia não diz respeito só da internet, mas da Indústria Cultural como um todo. Se todo mundo se tornou criador, de uma hora para outra, é importante que existam…guias. Que sejam organizações filantrópicas, revistas digitais, guias culturais, pequenos jornalistas celebridades, blogs duvidosos, tumblrs estranhos, newsletter chatos…

Ou, pois, os Coletivos! Mais do que ditar o sinal dos tempos, onde a cultura se tornou participativa e colaborativa, os coletivos culturais abriram os olhos para uma boa e velha possibilidade de se interagir na praia: Surfar junto. E então poder unir as aspirações de cada surfista para poder criar uma plataforma básica de sustentação para o sonho de viver para sempre entre as ondas e a areia.

Pedro Furtado, André Macedo e Leonardo Lott formaram juntos no curso de Comunicação Social da UFMG, cada um som sua habilitação, baseadas em Rádio e TV, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. E a partir disso, bem… montaram um escritório na praia para o Coletivo Imaginário. Da janela, no lugar das garotas de Ipanema, os contornos da Avenida Amazonas, no Centro de Belo Horizonte. “É uma sala de 18 metros quadrados. Pelo menos é em cima disso que eles cobram nosso IPTU. Nossa área útil mesmo, é de 3x4m, com quatro pilares que ainda bagunçam nossas mesas de canto”, esclarece Pedro, via Facebook, durante uma sexta-feira quente de trabalho.

Da quebrada bem arrumada e decorada é que eles interagem com, sobretudo, quem está de rolé na areia. Produzem desde vídeos para movimentos culturais, como o festival neo-circense I.N.C.R.I.V.E.L, e clipes de bandas independentes como o Fadarobocoptubarão, até outras trabalhos que envolvem grandes marcas, como o shopping Diamond Mall, a Casa Cor e a PUC Minas. “Os vídeos do I.N.C.R.I.V.E.L. estão diretamente ligados ao processo de ter tempo livre para fazer o que a gente curte depois de ter ganhado uma grana com um cliente mercadológico”.

“Acho que dificilmente funcionariamos tão bem se fossemos um Coletivo só de fotógrafos ou só de designers. Tampouco funcionaríamos tão bem se não fossemos amigos antes de começar essa história toda”, conta Pedro, que responde como fotógrafo e diretor de vídeo do Coletivo. Na entrevista a seguir, ele ainda conta como é que andam tocando o barco, levantando alguma grana, e fazendo o sonho acontecer em um estado conservador como Minas Gerais.

Ah! E é bom lembrar. Não fosse por uma viagem para a cidade praiana de Maracaípe, no Pernambuco, é bem possível que as coisas tivesses sido diferentes. Essa história toda aqui começou na praia. De um jeito ou de outro.

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Que a coletividade é o presente e o futuro da comunicação e da cultura, ninguém pode negar. E tem muita gente nessa, de alguma maneira. Mas as vezes eu sinto que ainda não tomamos o sistema, o poder, ou a lógica do mercado. Será que os coletivos sempre andarão assim, às margens da Cultura de Massa? Ou será que ainda quebraremos alguns paradigmas, e poderemos construir algo que dialogue com outros públicos e esferas?

Cara, eu acho que, de certa forma, os Coletivos precisam se manter um pouco à margem da cultura de massa, porque a partir do momento que você se vincula à alguma instituição maior, você passa a dever satisfação à moral e aos bons costumes defendidos por essa instituição – e aí você perde sua autonomia.

Exemplo: logo no começo do Coletivo fomos procurados por uns amigos pra ajudar a produzir uns vídeos do PSB, e eu fiquei quatro noites sem dormir direito, pensando se ia aceitar ou não. Era uma grana que ia alavancar nossa vida totalmente e ia dar autonomia financeira pra gente passar um tempo fazendo os nossos projetos. Mas puts, é o PSB porra. Acabou que a história não foi pra frente, e eu pude voltar a dormir tranquilo. Mas é um dilema que eu acho que todo mundo que tem um Coletivo vai acabar passando. Quem paga as contas normalmente são os clientes de verdade, que tem demandas e posicionamentos sócio-políticos que na maior parte das vezes não combinam muito com o conceito de Coletivo – é preto no branco, pá pum, nego só quer ver o trampo pronto, ganhar o dele e ponto final.

Outro exemplo que eu posso dar é o da galera do Queijo Elétrico. Ano passado eles foram financiados pela Vivo através de Lei de Incentivo e, de certa forma, eles precisavam se “comportar”. Assim que o patrocínio acabou, eles foram lá pra Cidade Administrativa mandar todo mundo pra puta que pariu, mataram o Lacerda e o caralho a quatro – posicionamento que eu acho muito doido e que tem muito mais a cara dos meninos, mas que jamais seria possível sob o patrocínio de uma empresa grande como a Vivo. É muito rabo preso nesse mundo, e o CEO de uma mega telefônica dificilmente quer ver a marca dele no final de um video com esse conteúdo, sacou?

Se você quebrar os paradigmas pra dialogar com outras esferas e passar a depender demais de quem tem dinheiro pra fazer a roda girar, você vai ter que entrar no jogo de uma forma ou de outra. A parte boa de ser Coletivo é justamente se manter um pouco à margem dessa lógica de mercado, pra você se manter livre de umas amarras que estão diretamente vinculadas à cultura de massa.

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Vocês tem trabalhos que envolvem marcas grandes, como a blogueira Cris Guerra e o Diamond Mall, e como também a Casa Cor 2011. De alguma maneira, isso representa uma “tomada do mercado”, uma boa maneira de interferir na cultura de uma maneira mais ampla. Não?

Tenho minhas dúvidas se esse relacionamento com clientes maiores representa uma tomada de Mercado da nossa parte. Claro que quero acreditar nisso, mas acho que nossa participação nessa história reflete muito mais um cenário tecnologicamente favorável à pequenos produtores realizarem trampos de alta qualidade do que qualquer outra coisa. Para o dono da Casa Cor tanto faz se quem fez o video dele foi um coletivo, uma grande produtora, um canal de televisão ou quem quer que seja – pra ele o que importa é o video bonito no ar. Nesses trampos maiores, o relacionamento com o cliente de verdade é mínimo, a gente se relaciona é com agências de publicidade que tem a conta desse cliente. E para as agências, os Coletivos são uma mão na roda, porque tem as ferramentas pra realizar o trabalho com qualidade, mas tem o custo mais baixo do que os outros fornecedores dinossauros, e isso se encaixa na lógica de Mercado perfeitamente. É chinês fazendo Nike Air por prato de arroz. Mesmo quando o cliente procura a gente diretamente, o que eles querem é custo reduzido e ponto final, porque você é tratado como se você fosse uma micro empresa, ou um freelancer, sei lá – e o conceito de coletividade que motivou a gente a estar aqui passa longe nessa hora.

Hoje em dia qualquer designer foda investe 5 mil num iMac e numa tablet e faz miséria com isso. Com mais 10 mil você compra uma 7D, umas duas lentes e pronto – você tem condições de produzir vídeos do caralho pra quem quer que seja. Claro que nosso dedo tá lá, na grande mídia e nos outdoors. Artista de rua tá expondo no MASP, o Governo de Minas tá financiando a Bienal do Grafite, e isso legitima um pouco o processo de produção independente. Mas ainda fica a sensação que não é a gente que está lá de verdade, porque quem é grande e contrata esse tipo de serviço talvez esteja fazendo isso porque é cool, ou porque é tendência. Eu acho que a grande jogada nessa história é saber conciliar. Você faz os trampos para os grandes clientes, deixa a grana entrar e financiar as coisas que você realmente acredita.

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Aqui em Belo Horizonte costumava ser mais difícil esse diálogo com outros públicos. Por conta daquela velha ideia de conservadorismo, tradicionalismo… Como está sendo construir a cultura aqui, e agora? Tem mais espaço?

Tem mais espaço sim, mas isso tá acontecendo independente dos outros públicos abandonarem o conservadorismo e o tradicionalismo. De certa forma a vontade de fazer isso acontecer sempre existiu, acho que sempre se produziu cultura independente de uma forma ou de outra, e as pessoas sempre se articularam da maneira que era possível no seu próprio tempo. A diferença que eu vejo agora é que o espaço de articulação que a internet permite é bem maior e mais imediato, e a cultura marginal acaba aparecendo pra um número maior de pessoas independente de grandes canais de comunicação.

A esquerda festiva tá na rua, tem show pra todo lado, estamos reivindicando nosso espaço nas ruas e nas praças, e isso é espetacular, mesmo! O que é triste de ver é que o conservadorismo ainda existe, e existe muito, até mesmo entre as pessoas que tem acesso às ferramentas para se articular de uma forma legal e entrar em contato com a cultura independente. Por exemplo, tenho primos que tem a cabeça do tamanho de uma azeitona nesse sentido, e a internet não ajudou eles em absolutamente nada na hora de descobrir tudo que tá acontecendo por debaixo dos panos. E eu falo isso sem medo porque eu tenho certeza absoluta que eles jamais leriam essa entrevista se ela não estiver nas paginas amarelas da Veja. Eles provavelmente vão se tornar grande empresários iguais aos que existem hoje, e dá um pouco de medo pensar que nada vai mudar, que os meus filhos podem até produzir cultura independente e consciente, mas que os filhos deles vão continuar alienados iguais eles são hoje em dia.

É do caralho sentir que as coisas estão acontecendo, mas ao mesmo tempo é meio frustrante pensar que o círculo de pessoas que percebe isso é muito reduzido. No final das contas, sua revolta no Facebook só atinge pessoas que pensam igual à você. O cara que não acredita naquilo corre a barra de rolagem da mesma forma que ele mudaria o canal da TV ou deixaria de comprar uma revista que não reflete aquilo que ele acredita. É lindo ver duas mil pessoas marchando contra o (prefeito de Belo Horizonte) Lacerda, mas e aí? Numa cidade de mais de 2 milhões de habitantes isso representa o que? 0,1%? Apesar da sensação que a internet permite muito, quem realmente tira a bunda da cadeira pra fazer as coisas acontecerem é uma parcela muito reduzida. É um espaço sensacional de diáglogo e troca de experiências, e o próximo passo seria as pessoas entenderem que o espaço é SÓ para o diálogo, e que as coisas não vão acontecer só aqui. Sei lá, às vezes acredito numa teoria da conspiração que quem manda no sistema deixa a gente se revoltar só um pouco, achar que a gente tem o poder só um pouco e ser feliz só um pouco, mas no final das contas que vai mandar são as grandes empresas e corporações. Mas aí já é outra história hahaha.

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O Coletivo Imaginário me parece uma maneira maravilhosa de conciliar uma paixão por Comunicação e Imagem com Trabalho e Sucesso. Será que vamos todos conseguir viver disso por muito tempo? Ou será que, vez ou outra, teremos que tirar a nossa gravata no armário?

Depende muito do destino que você traçou pra sua vida. Quem tiraria a gravata do armário num momento de aperto, já tirou antes de apertar, sacou? Grande parte da resposta pra essa pergunta tá naquele video da Geração Y, que a BOX fez, e eu não quero tentar analisar comportamento de ninguém. Mas quem já se permitiu viver do que gosta, vai continuar assim. E se Comunicação não der certo, eu vou pra praia abrir um albergue.

Uma vez um amigo me falou, durante um banho de mar em Maracaípe/PE, que a grande diferença entre a nossa geração e a geração dos nossos pais é que, para eles, o certo era trabalhar muito durante a vida pra ganhar dinheiro e curtir a vida depois, e que, pra nós, isso não existe. Para nós, a vida já está acontecendo agora, e tá acontecendo rápido demais. Naquela hora, com aquele mar e aqueles coqueiros, isso que ele falou fez todo sentido, e acho que foi aí que decidi pedir demissão do meu emprego pra usar meu tempo para as coisas que eu gosto. E vou te falar que não foi fácil, porque era um emprego que pagava muito bem, com boas possibilidades de crescer dentro da minha área. É inegável que a condição financeira dos meus pais ajuda bastante, mas dificilmente eu me permitiria “tirar a gravata do armário” para aproveitar só depois de aposentado.

Claro que às vezes a gente coloca uma camisa social xadrez e uma calça jeans mais arrumada pra tentar fechar um contrato, mas são passos e decisões maquiavélicas que a gente toma com muito cuidado e consciência.

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Geniais os vídeos do I.N.C.R.I.V.E.L. Como tem sido essas produções? São vídeos pensados na internet, né?

Os vídeos do I.N.C.R.I.V.E.L. estão diretamente ligados ao processo de ter tempo livre para fazer o que a gente curte depois de ter ganhado uma grana com um cliente mercadológico. O Coletivo Imaginário sempre existiu nesses moldes, desde o primeiro email sobre a vontade de abandonar o emprego e começar nosso próprio negócio. Com esses trampos não entra grana, e a gente faz pelo simples prazer de criar e rir junto na hora de produzir alguma coisa. A liberdade criativa é integral, e a visibilidade que isso ganhou tem muito a ver com isso. É isso que a gente gosta de fazer, é isso que a gente sabe e quer fazer. É praticamente impossível pensar uma campanha da Casa Cor ou do Vestibular da PUC com um palhaço sujo cuspindo jujubas e berrando “MULHER PORRA!!!!”. Mas eu só fui convidado pra ser diretor dessas campanhas por que esse video caiu na mão das pessoas certas e eles viram que a gente é capaz de produzir algo massa. Então quando a galera da Híbrido (www.hibrido.cc) convida a gente pra pensar algo desse tipo junto, nossa entrega é total, topamos na hora sem nem perguntar se tem grana envolvida, porque a gente sabe medir que tem coisas que valem tanto quanto (ou até mais) que dinheiro no bolso. Ou quando a galera da CHOICE (www.choice.org) pergunta se a gente topa ficar 48h sem dormir de frente para um stop motion a preço de custo a gente também topa sem pestanejar, porque é nisso que a gente acredita, é disso que a gente gosta e é com essa galera que a gente quer trabalhar. O único retorno a curto prazo que isso traz pra gente é alegria, diversão e folia. A longo prazo até pode trazer coisas melhores, como foi o caso dessas campanhas da PUC e Casa Cor. Mas não entra grana massiva, e isso é de boa, porque o projeto é exatamente esse.

(Teaser para a segunda edição do I.N.C.R.I.V.E.L., produzido pelo Imaginário e pelo Híbrido.cc)

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E sem a internet, nada disso seria posível. São videos pensados pra internet o tempo todo, e eles não funcionariam em nenhum outro lugar. Primeiro porque a Globo Minas jamais passaria um video de um palhaço sujo cuspindo jujuba e gritando “MULHERADA LOUCA, INSANA E PIRIGUETE” – e muito menos passaria em Full Hd hahaha. Segundo porque essa galera não tem dinheiro pra comprar mídia para isso passar de num canal de verdade. E terceiro porque, mesmos todos esses outros impedimentos fossem contornados, o video não teria nem um décimo do impacto que ele tem pela internet, porque é só nela que ele atinge as pessoas certas.

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E quão importante tem sido a internet no trabalho de vocês?

Eu não consigo imaginar o que seria da gente sem a internet, mesmo. Nossa máxima aqui dentro sempre foi “tudo é conteúdo” e, mesmo sem cliente, a gente tava soltando vídeo de reforma da nossa sala, video de balão vermelho subindo pela janela e mais um monte de besteira. E isso é importantíssimo pra você aparecer, mostrar sua cara, mostrar pra todo mundo que você tá aí querendo produzir alguma coisa. E é sensacional você poder se apoiar num meio com características iguais às da internet. É de graça, é em Full HD, você atinge quem realmente se interessa pelo seu produto e a coisa circula de uma maneira assustadora. Lembro que logo quando entrei na faculdade, em 2005, eu fui mandar pro grupo de email da sala o video de um japinha tocando todas as músicas do Super Mario no piano, e eu fiquei uns 40min anexando o arquivo wmv de 10MB no email. Não tinha Youtube, porra! E nessa mesma época a MTV deu uma reformulada bruta na programação deles, e grande parte dos programas passaram a dialogar e depender quase que integralmente da internet, várias categorias do VMB incluíam produções que só estavam na internet etc. Na época eu achei isso meio precipitado e queria continuar vendo clipe anos 90 style, mas hoje eu vejo que os caras foram muito visionários. Se não fosse por isso, os caras provavelmente já teriam morrido. Hoje qualquer um pode produzir um programa sobre o que quiser e ser visto em todo lado, e é muito sensacional você não depender de nenhum canal de TV pra isso. Se não fosse pela internet, com certeza não estaríamos onde estamos hoje.

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