
Já tem algum tempo que a gente vem se esbarrando com o Luiz Valente em algumas quebradas de Belo Horizonte. Aliás, lembro de ficarmos bem chocados ao saber que tinha um sujeito aqui na cidade prensando vários artistas brasileiros em vinil. Nós já tínhamos o primeiro LP do Dead Lovers, de 2010, e o primeiro compacto do Graveola, lançado em seguida. Porém, só depois que começamos a ligar as coisas.
Entramos em contato com o Luiz, pela primeira vez, quando saímos de Londres, em agosto deste ano. Ficamos um tanto maravilhados com o tanto de discos que estavam saindo nas ruas de lá e, bem, começamos a vislumbrar a possibilidade de prensarmos algumas coisas que andamos produzindo, aqui no Bubble Trouble. Músicas como a do Steven Doris, duo Brasil/França assinado com o selo que ainda não inventamos.
Lembro que Luiz foi atencioso pra caralho. Se dispôs a ajudar no que fosse preciso para poder fazer a coisa girar. Esse Steven Doris, que também estava em Londres, chegou a visitar algumas casas escuras e estranhas, de londrinos de vinte e poucos anos que vem gravando discos em casa. Parece que eles usam tipo uma máquina que risca discos virgens, gerando um resultado, claro, bem menos satisfatório do que o formato tradicional.
Fato é que, em todos os dias que estivemos na Europa, no verão deste ano, acompanhamos o lançamento de dezenas de LPs de artistas de visibilidade mediana. Roska, SBTRKT, singles duvidosos de Jamie xx. Uma grande parcela vem optando por esse formato meio caseiro, as vezes até sem um carinho especial com o desenho da capa. O que querem é poder escutar – e discotecar – a própria música em um formato mais charmoso e maleável do que CDs ou mp3.
Foi até mais ou menos isso, que fez o Luiz Valente entrar na jogada. No começo dos anos 2000, Luiz era dono de uma casa chamada Lugar, nos arredores da Savassi. Segundo ele, “o Lugar era um espaço cultural tipo o Studio Bar, assim, na época em que o Studio Bar estava fechando pela primeira vez. Porém, lá acontecia de tudo. Exposição de fotografias, exibição de filmes…”. Isso, num tempo em que as coisas caminham em outro ritmo.
“Estava começando a era digital”, aponta. “Não tinha Facebook, fotografia digital ainda era bem devagar, não tinha como compartilhar igual se faz hoje”. Apaixonado por vinil, Luiz separou uma das noites do espaço para fazer uma festa dedicada ao formato. O nome, Vinyl Land. Todo um pessoal começou a colar para preservar e prestigiar os discos, o que acabou levando Luiz para um próximo passo. “Eu queria poder tocar as coisas novas que estavam surgindo. Até coisas pops mesmo, como Los Hermanos. Mas não tinha jeito. Não tinha como comprar. Não existia!”
Em 2003 a casa fechou, a festa andou por algumas edições e Luiz acabou se mudando para Londres. Do lado de lá, trabalhando em um selo, a Vinyl Land foi tomando formas de algo muito mais concreto do que uma simples festa mensal. Luiz descolou alguns canais de produção, fez alguns contatos, e começou a pensar em distribuição. Um passo grande – que poucos produtores ousam arriscar.
De 2009 até hoje, o selo já colocou 14 artistas brasileiros em vinil. Todos prensados no Reino Unido. Graveola e o Lixo Polifônico, Dead Lovers, Lucas Santtana, Tulipa Ruiz, Fusile, Karina Buhr… O lançamento do 15a artista, um compacto do BNegão e os Seletores de Frequência, rolou agora em Dezembro, no Granfino, em Belo Horizonte. Também foi comemorado o aniversário de três anos do selo.
Essa conversa com o Luiz rolou em uma terça-feira de chuva, no nosso estúdio. Além de saber da história da Vinyl Land, falamos de Londres, da cena independente brasileira e, claro, da Indústria. Luiz é um sujeito gente boa, de conversa tranquila. Faz parte aí de um pessoal que sabe avaliar legal o momento em que o cenário cultural se encontra. Não assume muitos partidos e não parece dimensionar a sua importância para o crescimento da cidade – e de muitos artistas brasileiros – nos últimos anos. Mas, não fosse por ele, essa tal Cena Independente de Música estaria atrasada em pelo menos 33 rotações por minuto. Sente só:
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Então, me fala um pouco do começo da Vinyl Land.
Então, mais ou menos em 2002, quando eu ainda era dono do Lugar, tava começando a pintar muito DJ novo. O pessoal tava começando a ter acesso aos lançamentos com mais facilidade. O acesso ao mp3 ficou mais fácil, copiar CDs… Você não precisava mais comprar discos para ser DJ.
Criamos a festa Vinyl Land, lá no espaço, para valorizar o outro lado, de quem investe e pesquisa. Você pode até copiar o seu DJ favorito, e tal, mas se tá afim de tocar o que ele toca, em vinil, vai ter que correr atras. A primeira edição foi em 2003. Uma festa voltada exclusivamente para o vinil. Deu muito certo.
Bom, daí, depois que o Lugar fechou, em 2003, a gente fez mais umas duas ou três edições da festa Vinyl Land, e acabei indo morar em Londres. Foi lá que passei a mexer com esse negócio de discotecagem com mais vontade. Comecei a comprar mais discos também e, naturalmente, fiquei com vontade de tocar essa nova música independente brasileira. E mesmo até coisas comuns, tipo Los Hermanos.
Mas não tinha como tocar nas festas, porque os discos simplesmente não existiam. O selo surgiu disso.
Em Londres eu via vários discos saindo. Trabalhei em um selo, e acompanhava as notícias de vendas de discos aumentando. Claro, era muito pequeno ainda. Mas, em todo caso, era um crescimento. E toda semana eu comprava vários compactos novos.
Daí, a coisa foi bem espontânea mesmo. Vim para o Brasil, conversei com o Gabriel, do Autoramas, que tinha alguns compactos, o pessoal da Monstro, também, que lançou muita gente em disco de meados dos anos 1990 até meados de 2000. Aí, em BH, conheci o Dead Lovers, fui num show, achei ducaralho, e falei: “pô, eles mesmo”. Uma banda próxima. Conversei com eles, falei da ideia, eles acharam legal. Aí fiz os dois primeiros e lançamos em 2008. Dead Lovers e Autoramas.
Lançamos o Autoramas em 2008 e o Dead Lovers veio em seguida, no começo de 2009. Inclusive, foi um dos primeiros shows de bandas verdadeiramente autorais no Studio Bar, que não fosse essa onda rock n roll, Falcatrua, rock n roll mais clássico, e tal. Foi ducaralho, deu tudo certo, os discos venderam bem… Aí começou a história mesmo.
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(Os dois primeiros lançamentos do selo. Compactos do Dead Lovers e Autoramas)
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Hoje a Vinyl Land é só você, né? É quase uma guerra, para um homem só.
É. Queria muito ter alguém comigo, mas até hoje não rolou. Precisava era de uma pessoa para ficar na internet, divulgar, comunicar… Isso toma muito tempo. Nas próprias vendas, também. Você tem que estar sempre ali, cutucando as lojas e tal. Faço tudo, desde o lançamento, assessoria de imprensa, internet, facebook, discotecagem…
Mas esse é o estado da música mesmo. Lá fora está assim também. Os selos independentes estão todos enxutos. Ha dez anos você até poderia encontrar dez pessoas trabalhando em um selo microscópico. Hoje enxutou pra caralho. As próprias lojas de disco que estão abertas, é porque sabem trabalhar certinho, não vacilam.
Em Londres, que é a mecca, todo dia fecha loja. Vi só uma loja abrindo, no período que em que morei por lá.
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E como que o selo foi girando? Os artistas te procuram? Você que faz o corre?
Eu mandava alguns email, conhecia por algum motivo. O pessoal ficou sabendo e começou a me procurar também. Aí depois foi caminhando.
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Qual é a tiragem que normalmente está sendo feita?
É sempre uma onda mais pontual mesmo. Se der certo fazemos mais. Normalmente, LP são 500 cópias, compactos, 350. Dá um giro no negócio. Um disco que vendeu muito no país é o do Criolo. Conseguiram esgotar mil cópias. Já tem mais apelo. Saiu pela banda mesmo, no lançamento.
Mas, geralmente, as prensagens giram em torno disso. Mesmo as da Polysom (única fábrica de vinil da América do Sul). Quinhentas cópias é o mínimo que dá para fazer um empreendimento sem ficar com o disco parado.
Então, nesse meio tempo, começou uma galera a se ligar, o vinil voltou em voga, muitas matérias falando a respeito, a própria Polysom voltando. Eles tem uma assessoria do caralho, se você for ver. Foram até no Jô (Soares).
Aproveito sempre para comprar os discos que outras bandas brasileiras estão vendendo. Quando monto minha barraquinha nos festivais, igual rolou agora em Belém, no (festival) Se Rasgum, coloco tanto os discos da Vinyl Land como dos demais artistas que tenho. Criolo, Autoramas, o LP que não é meu…
Agora o trabalho é com essa distribuição, que está começando a acontecer. A barraquinha cheia, gorda, interessa mais.
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(Vinyl Land prensando o pessoal do Rio e Bahia. LPs do Do Amor e Lucas Santtana)
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Você que acompanha essa cena de perto ha algum tempo, dá para dizer em que momento a música brasileira está? Será que há mesmo um crescimento? Ou será que a gente vive uma certa estagnação?
Tem vários estágios… Pega a Tulipa, por exemplo. Ela está na mídia, na MTV, Rock in Rio… Circulando, fazendo shows… Só que o negócio ainda tem um certo teto, ali, né? Chega uma hora ali que ele para, não explode. São poucas as bandas que estão dominando o Brasil hoje, se você for pensar.
Mas é um nível levemente satisfatório, que alguns desses artistas independentes estão alcançando. Eles tão girando uma grana, todos ali são músicos, na banda dela. Nas outras também, do Lucas Santtana, Do Amor, muitos ali são só músicos. Curumim tambem. E a galera, você vê, eles tocam sempre em outras bandas. Tão sempre fazendo um corre. O cenário de música não está parado, isso é uma certeza.
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Mas como que você imagina esse cenário daqui dois, três anos? Será que vai estar bem diferente? Crescer? Tomar tudo?
Não sei se dá para ficar maior do que estão. O problema não está mais nos artistas, mas talvez no público mesmo. Você vê que existem dezenas de festivais rolando no país, muitos artistas circulando… Mas ainda existem algumas coisas erradas. Nem todo mundo ganha grana. E, com isso, não consegue viver só disso…
Em teoria, no meu próprio Selo, era para as coisas andarem um pouco mais rápido. Se eu conheço, pessoalmente, 100 pessoas que compram vinil, deve existir pelo menos 5mil no Brasil com as mesmas aspirações. Uma tiragem de 500 cópias no mundo? Isso é um pingo no mar. Muito pouco.
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(Luiz prensando as garotas de Pernambuco e São Paulo. Karina Buhr e Tulipa Ruiz)
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‘Tem um crítico em São Paulo dizendo que, o problema da cena de música de lá, é que existe alguns artistas acostumados com a grana que recebem tocando em Sescs, e em outros espaços que rolam grana do governo. E, por conta disso, acabam não correndo atrás de aumentar o público…
Não acho que esses artistas não estejam correndo de aumentar o público. Pelo contrário, acredito que eles estão no corre direto e fortemente e, por isso, conquistaram esse espaço de forma legítima para tocar em canais e festivais com grana. É mérito deles e acho que eles estão supercertos de tocar e pegar o cachê legal. Todos merecem isso e muito mais.
Tudo isso se deve à luta de pessoas e produtores chaves, do governo etc. Sorte nossa que, hoje, no Brasil, existe lei de incentivo e esquemas bons com cachê e estrutura, que viabilizam diversos projetos fodas e fundamentais, que de outra forma não aconteceriam. Claro que tem coisa para melhorar, mas isso sempre tem.
O problema é quando se cria certos vícios. No público, que espera um show foda por um preço barato ou de graça; e nos artistas (na verdade mais nos empresários de artistas mesmo), que querem receber o maior cachê possivel, é claro! Estão mais que certos.
A questão é que, ao mesmo tempo que as leis de incentivo beneficiam muita gente, produtores independentes, como eu, ficam um pouco na mão. Por exemplo, o artista vem e toca no Conexão Vivo, no Parque Municipal, com ingressos a R$5, R$10. Evento cheio, lindo, bem movimentado, palco, estrutura… Pô, todo mundo pira.
Mas, agora, na hora deste artista vir para o independente mesmo, ter que fazer um show a R$30 aqui em BH, nem sempre traduz no público. Um porque a galera tá acostumada a ir lá na Praça do Papa e ver o show do artista preferido do momento de graça. Dois, porque o artista, que toca em Sescs e em festivais de lei de incentivo, fica esperando receber o mesmo cachê quando vem para o independente mesmo. Só que a conta não fecha. Não dá para colocar duas mil pessoas em um evento desse, para a conta fechar.
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(Pessoal de Belo Horizonte prensado em compacto. Graveola e Fusile).
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E como que você pretende se virar, nesse contexto? Qual é o balanço que você consegue fazer?
Estamos no caminho, eu acho. Já são três anos de selo, com 18 lançamentos, o que, para um selo independente, eu acho bom pra caralho. Uma media de 6 discos por ano, com artistas relevantes.
Gostaria de manter esse foco da cultura nova brasileira. Não penso em trabalhar com gringos. Os gringos já tem seus canais para lançar discos.
A vontade é estar presente lá fora cada vez mais também. O nosso site promete um pouco disso. E tem rolado. Mesmo com pouca divulgação, já tivemos pedido do Japão, e de lugares que nem sei de onde que vem. E o mercado, pra mim, tem que ir muito além do Brasil. Não dá para ficar contando só com o que rola aqui.
Eu fico animado porque tem muitas outras bandas lançando discos também. As bandas estão começando a enxergar que isso é uma boa. Você fazer um compacto, fazer tudo direitinho, e soltar ele no dia do lançamento de um álbum mesmo. Botando no início do processo, a grana volta em seis meses, e você parte pra próxima. As bandas que tem essa pegada já estão fazendo.
E isso até me alivia uma nóia de tentar lançar tudo que eu gostaria. Porque isso eu nunca vou conseguir, né? Rs.
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