EXPERIÊNCIA SONÀR SP 2012

(Flying Lotus aponta caminhos)

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Abrir os olhos e ver. O Sónar SP foi uma experiência calorosa para a nossa leviana sobriedade sobre o mundo. Dois dias para embalharar e confortar os nossos anseios mais latentes. Amor e desassossego. Música avançada e desejos. Bem que poderia perdurar pelos meses, cada um daqueles barulhos nada estranhos.

A começar pelo DJ-set do poeta londrino James Blake. Foi quem abriu o palco principal do festival, na sexta, dia 11, induzindo os poucos presentes a refletirem sobre o presente. Sobre a experiência. Sobre dar um passo no conhecimento tênue da contemporaniedade. Somos filhos de um novo mundo, veja bem.

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(Justice ilumina)

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Faz pensar em Londres, e nos dias em que conhecemos a cidade no meio das Riots de gangues e imigrantes, no verão de 2011. Assistimos nos campos vitorianos apresentações não só de Blake, mas também de Jamie xx, SBTRKT, Benga, Jamie Woon e outros subversivos contidos. Lá, qualquer sinal de grave é sentido para dançar. Aqui, no Brasil, ainda estamos aprendendo a se mexer.

Neste Sónar, melhor vai ser listar os shows que mais viajamos – porque qualquer palavra pode soar impertinente demais, dado o momento em que nos encaixamos no tempo. Tudo é muito novo, para alcarçarmos qualquer reflexo que seja realmente pertinente. Não cabe em palavras o que é se sentir contemplado – as ânsias e os ânseios – por um festival que aconteceu aqui, perto de casa. Sobretudo acompanhado destas pessoas, olha só:

 

1. James Blake (UK)

(Poeta James Blake recita versos para plateia atenta)

 

Poeta indolente e incansável. Homem de poucas palavras, mas de palavras certas. Abriu o festival com um DJ-set, na sexta-feira, e descreveu caminhos que passaram pelo UK house, hyperdub e hip hop. Quase nada de dubstep – o gênero que ele subvertou para criar uma sonoridade mais minimalista.

Uma apresentação de James Blake é sempre surpreendente. No sábado, com sua banda, desfez as músicas de seu primeiro álbum, James Blake (2011), em quebradas de dub e drum and bass. Bem sossegado, é claro. A gente tava chegando do Justice, na hora que ele começou Limit to Your Love, e começamos a gritar. Acho que tava todo mundo em silêncio, no auditório.

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2. Skream ft. Sgt. Pokes (UK)

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Ainda falta fôlego, para falar sobre esse movimento aqui. Skream é um moleque londrino que respira dubstep há quase uma década. Vivendo nos subúrbios de Londres, teve a chance de moldar o gênero conforme suas aspirações mais levianas.

Parece bolado, porque o dubstep tomou outro caminho nas américas. E, talvez por isso, resolver pesado com este estimado público, de inocentes brasileiros. Uma faixa mais pesada que a outra, na sequência. Com Sgt. Pokes, integrante do tenebroso DMZ collective, provocando no microfone.

3. Flying Lotus (Los Angeles)

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É de arrepiar, encarar o Flying Lotus de perto. A presença deste respeitável homem de Los Angeles é intimidadora, provocante e calorosa. Mesmo com todo o seu carisma estampado em um sorriso recorrente, uma simples troca de olhares com o sujeito faz uma onda de frio percorrer toda sua espinha.

Porque o americano não pega leve, ao vivo. A influência continua sendo os graves bem calculados e planejados. Mas coloca em sequência Tyler de Creator e, hum, Lil John. Passando por timbres sofisticados, como Zodiac Shit, do seu maravilhoso álbum Cosmogramma. As duas últimas, contudo, foram de quebrar tudo. Primeiro, Original Don, do Major Lazer. “These one is from my friend Diplo”, ele avisou. E, no fim, esse dubstep cabuloso que você vê em vídeo.

4. Justice

Certo. Tudo que tenho a dizer é que encostei no Xavier, antes do show. É. Vi ele no bar, e colei ali para tocar no seu ombro.

 

5. Munchi.

Somos suspeitos para falar, porque já tem alguns meses que a gente vem escrevendo por aqui que o Moombahton é o som do futuro. Mas a apresentação do Munchi deve ter sido a melhor do festival. Ainda que ela tenha sido presenciada por apenas… 100 (?) pessoas. Haha.

(Munchi pira)

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No final o SonarClub lotou, então tudo certo. Munchi é carismático demais – o que pode ser explicado pela sua origem Dominicana, e atual residência na Holanda. Sua música é uma mistura de cumbia, reggaeton e house holandês. Uma profusão de rítmos tão estranha, que as danças da plateia não poderiam ser diferentes.

Perdoe-nos, em todo caso. Se quer saber a verdade, a gente ainda está aprendendo a dançar – tudo isso, e qualquer parte disso – de novo.

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*Tendo colado – ou não – no Sónar SP, você é nosso convidado para conhecer melhor estes e outros artistas ouvindo a nossa Trouble Radio. Especialmente a edição #8 (Trouble).

 

RUSKO EM AMSTERDAM

Rusko em dez minutos, e ali já estão oitocentas almas se ajeitando no meio do Paradiso, Amsterdam, no olho do furacão do tempo e da loucura, oitocentas almas carburando seus cigarros de maconha e de haxixe legalizados pelo governo, quase todas de preto, quase todas com passaportes carimbados na alfândega de Londres em alguma outra estação do vento.

Daqui de cima dá para ver todas elas se movimentando como máquinas em desencaixe perfeito, um redemoinhos de buscas e de perguntas se enrolando entre o palco e o balcão onde se pode pagar cinco euros por uma cerveja boa e honesta; está todo mundo esperando o momento certo para chegar ainda mais perto, começar a gritar, e colocar fogo em outro baseado cuidadosamente enrolado.

Não demora nem os dez minutos e ali está Rusko, moicano no lugar, terno preto e bem cortado, um monge jovem e moderno carregando nas costas uma mochila com um computador maltratado pelos cinco ou seis anos em que já está na estrada – é um legítimo DJ de dubstep – talvez até o mais famoso deles, e agora, vestido assim, parece até um astro pop em um momento bom de sua carreira fugaz.

Fugaz porque não há uma espécie animal que possa aguentar o que ele vem aguentando – cinco apresentações por semana, cinco países diferentes, cinco plateias de jovens loucos e alucinados, alimentados em suas ânsias de uma vida de perigo, loucura, adrenalina, medo e poesia. Rusko parece um guia com as respostas exatas – alguém que conhece um caminho no meio da vastidão de possibilidades de que é feita a Europa agora.

E então do palco agora vem um dubstep mais pesado que o outro – Rusko sorri – e o Paradiso começa a se desfazer em oitocentas corpos desencontrados rodando de um lado para o outro – rompendo com os limites de espaço e tempo – e nada de pegar leve, nada de segurar a onda – este é um movimento de dubstep em Amsterdam, a capital irônica do mundo, e não há nenhuma chance de quebrar toda a tensão que paira no ar.

Só com pancadaria. Mas a pancadaria é razoavelmente controlável. Um dubstep atrás do outro, cada vez mais escuro e gordo, mais estranho e menos assimilável, e a pista vai crescendo como se tivesse ganhando vida própria, como se agora todas as oitocentas pessoas tivessem suas respostas – amor e medo dançando juntos no meio de uma escuridão de luzes verdes e vermelho violeta.

REVOLUÇÃO DO SILÊNCIO

James Blake – Limit To Your Love

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The Quiet Revolution. O título é apelativo e especulativo, mas alguma coisa faz sentido nessa história. Veja bem, é certo dizer que, na verdade, estamos vivendo a Era do Barulho. Nossos ouvidos precisam lidar todos os dias com buzinas, caminhões despejando coisas na rua, máquinas pesadas, despertadores desesperados, comerciais de TV, jingles grudentos, Rihanna, e por aí vai. E, para piorar as coisas, no final do dia vamos pra balada querendo encontrar uma vida mais sossegada e, bem, saímos de lá com os ouvidos zumbindo, cheirando a cigarro, arrependidos de ter pego a pessoa errada, e coisa e tal.

Certo. Mas complicado mesmo, pode ter certeza, é ter morado em Londres nos últimos 10 anos.


Antes, o Dubstep

É que, além de ter que lidar com todos os problemas listados aqui no começo (tirando a parte do Bonner), possivelmente você ainda teria que ouvir Dubstep no fim do dia para poder encontrar as pessoas bacanas da cidade. Afinal, é difícil pensar outro movimento musical que tenha feito tanto sucesso na Inglaterra nos últimos anos do que essa mistura de ritmos – dub, drum ‘n bass e grimme, sobretudo – que os subúrbios ingleses estavam conspirando para além dos guetos, alcançando as boates, os pubs, a internet, as rádios, e o mundo.

De pouco em pouco, djs e produtores como Kode 9, Skream  e Burial tornavam-se figuras notáveis na cena local. Para legitimar ainda mais o movimento, eles contaram com a ajuda da jornalista inglesa Mary Anne Hobbs, “A Rainha do Grave”, que enfiou o dubstep goela abaixo dos ouvintes da BBC Radio 1 durante bastante tempo.

Porém, pode colocar aí que, até 2002, o dubstep guardava muita semelhança do que foi o início do punk  nos EUA e na própria Inglaterra. Nesse  começo da primeira década do século XXI, se você quisesse ouvir graves distorcidos, fritações eletrônicas e o prelúdio da música do futuro, teria que se desdobrar para conseguir fitas, gravações caseiras e arquivos mp3 com alguns moleques de 17, 18 anos que até então eram vistos como possíveis futuros criminosos. E eles estavam inventando algo que nem sabiam onde é que iria chegar.

Chegou ao ponto que, hoje, o dubstep já tem uma ala mais pop. Como todos os ritmos musicais. E o bom e ‘velho’ dubstep, pesado e pulsante, claustrofóbico e redondo, tem ficado tão pesado e apocalíptico que muita gente começou saltar do barco e/ou procurar alternativas para elevar novamente a expectativa de vida dos próprios ouvidos.

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A Revolução

Abençoado seja o The xx, pois. No auge do dubstep inglês, e no epicentro de um furacão de barulho, graves e baladas perigosas, eis que surge este quarteto de jovens obscuros, tímidos, vestindo preto e cantando baixinho. Romy Madley Croft (vocais e guitarra), Oliver Sim (vocais e baixo), Jamie Smith, ou Jamie XX (produção) e Baria Qureshi (teclado), que saiu da banda em 2009, colocam um elemento essencial que estava faltando na cena alternativa de música da Ingleterra: o silêncio.

Com sons mínimos, calculados e vocais impecáveis, o álbum de estréia da banda, XX, de 2009, não só foi eleito como um dos melhores discos da década por milhões de blogs, jornais e críticos, como também salvou a vida de centenas de londrinos e jovens espalhados pelo mundo que já não sabiam mais como respirar no meio de tanto barulho. E, inconscientemente, o quarteto acabou dando o pontapé inicial da Revolução do Silêncio, que acometeu Londres (mais uma vez) nos meses subseqüentes.

James Blake foi um dos primeiros a colocar um álbum ”silencioso” na praça, o James Blake, lançado em fevereiro de 2011. Assim como o The xx, as batidas de Blake são limpas, claras e calculadas. O vocal entra sempre na hora certa. E ele ainda toca piano e canta sobre os desamores mundanos. “I dont know about my dreams. All that I know is i’m fallin’, fallin’, fallin’. Existe uma diferença, porém. Em James Blake, percebe-se claramente vários flertes diretos com o dubstep. Nada muito pesado, é claro. Mas tal queda pelos baixos sintetizados e distorcidos valeu a Blake a bandeira de “pioneiro do movimento pós-dubstep”.

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Bloom – Jamie xx Rework by Radiohead

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Ainda em fevereiro de 2011, Jamie XX (dj e produtor do xx) colocou também na praça o álbum We’re new here, com remixes e releituras do álbum I’m new here, de Gil Scott-Heron, considerado por muitos o “pai do rap”. We’re new here mostra o silêncio do xx com a força do hip-hop e a irreverência do dubstep. A combinação é tão cabulosa e certeira que, é claro, o disco vai estar em qualquer lista dos melhores álbuns deste ano.

E não é nada estranho perceber que, assim como foi com o Dubstep, são moleques de 20 e poucos anos que estão ditando o “novo futuro da música”. Na mesma linha que James Blake (22) e Jamie XX, outros nomes que vem ganhando os blogs e rádios estranhas do mundo é o inglês Jai Paul (21), que soltou uma música na internet em 2007 e então desapareceu, e o norte-americano Nicolas Jaar (20), nascido em 1990 (!). Além de colocar o excelente e… silencioso álbum Space is only noise na roda este ano, Nicolas, que cresceu em Santiago, no Chile, já é dono de um selo de música eletrônica.

A “Revolução do Silêncio” segue com pelo menos quatro soldados, como se vê.  Porém, o que não falta é investimento e esperança no movimento, principalmente por parte da XL Records, que lançou tanto XX, como também Jamie XX e o único single do Jai Paul. Além do mais, sabendo da loucura que anda a música eletrônica londrina, da decadência do indie com lançamentos óbvios e redundantes, e sabendo como andamos precisando de um pouco mais de fôlego para respirarmos melhor no escuro… é de se esperar que esta revolução não tarda a ser televisionada para o mundo. Vai vendo.

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Nicolas Jaar – Space Is Only Noise if You Can See by CircusCompany

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Anexo

Future Sound – An Underground Electronic Music Documentary from Jamie Whitby on Vimeo.

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Future Sounds – An Underground Eletronic Music Documentary é um mini-documentário que discute o futuro da música a partir da cena de dubstep de Londres. Tem depoimentos de alguns nomes importantes como Roska, Scratcha DVA, Blackdown e Mark Fisher. O sotaque britânico não ajuda muito, mas se pá dá para entender alguma coisa.

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