Espaços independentes para a criação livre, libertina e coletiva nunca são o suficiente, a ponto de preencher a necessidade de uma cidade. A vontade criativa é infinita, como só parecem ser os muros, as fachadas e as placas do espaço urbano como um todo. Nada como a rua, para acatar as ânsias e as angústias que correm atropeladas pelo caos cotidiano. Olhe bem ao redor.

Belo Horizonte é uma cidade que demorou a perceber – e entender – o seu crescimento, como está sendo obrigada a enxergar, agora. De cinco anos para cá cresceu não somente o tráfego e o trânsito, mas também os bares, os letreiros, as luzes e os movimentos políticos, festivos e sociais. Uma corrente inteira alardeada e influenciada pelas conectividades latentes. Vemos o mundo, sentados na cadeira, e respiramos. O que sobra é somente o futuro e as suas possibilidade trôpegas e arriscadas.

Poucos sabem dos caminhos, mas provamos neste fim de semana de dois espaços especiais, que hoje funcionam como uma extensão da rua, em sua promessa empírica e emocional. A exemplo da mini galeria, que passa por um período de reformulação, a Casa Camelo e a Ystinlingue respondem pelo presente – e futuro – da criação artística que hoje alimenta esta Belo Horizonte interconectada, produtiva e insaciável.

A Ystilingue surgiu em meados dos anos 2000, em uma das lojas do edifício Maleta, no Centro da cidade. Expõe, semanalmente – e também permanentemente – trabalhos de artistas locais que dialogam entre grafitti, desenhos, gravuras e pinturas. O ambiente é rico e transpira a essencialidade da criação mundana através de encontros, desencontros e conversas arrastadas por cima de um isopor branco, onde são vendidas as bebidas da noite.

Foram eles – em parceria com o projeto experimental Piolho Nababo – que oferceram o Leilão de Obras de Arte a 1,99, no Nelson Bordello, há algumas semanas, com obras de artistas brilhantes como Froiid, Desali, Lelo Black e João Perdigão. Na sexta-feira a gente presenciou a exposição do artista Daniel Kassin, no Ystilingue. O que nos motivou bastante ao programa de sábado.

A Casa Camelo nasceu em outubro de 2011, nas mãos de cinco artistas visuais que procuravam um ateliê para trabalhar. E, naturalmente, foi tomando formas de uma galeria-espaço-de-projetos, que recebe visitas e ideias abertamente. A proposta é tão boa – e necessária para a cidade – que no sábado eles promoveram o Primeiro Mega Saldão de Obras de Arte a Pequenos Preços, com obras das mais diversas aspirações.

Como a de Luiz Lemos, mineiro de cinquenta e poucos anos, que pinta – e modela em metais – mulheres e instrumentos musicais. Suas peças – que já foram orçadas em R$10mil em galerias de Ouro Preto – estavam a venda por… simbólicos R$400. “É para dar mesmo”, disse, apontando para uma pintura grande, que muito lembrava as mulheres de Modigliani.

A criação de Belo Horizonte fervilha em centelhas desesperadas, como só os transeuntes da noite podem ver. Além dos espaços citados, é bom lembrar da Quina Galeria, também no Maleta e, claro, do Nelson Bordello, cabaré cultural que faz a cultura tradicional mineira rodopiar a duas dúzias de dúvidas por segundo. Depois daquele leilão a 1,99, nada mais fez tanto sentido. E, bem, nós vamos continuar atrás de algumas respostas. Rá.

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