
Certo. Já faz algum tempo que a cena brasileira de música independente vem sendo discutida por blogueiros, jornalistas, jornalistas duvidosos e críticos de fim de semana, que despejam na internet boa parte de suas divagações e aspiracões sobre os mistérios do planeta. E, conforme vem se tornando recorrente notar, raramente se tem notícia de uma crítica de disco nacional que não endosse o trabalho do artista independente em questão. Todo mundo anda defendendo todo mundo, veja bem.
Porque de uns anos pra cá, muita gente resolveu tocar o mesmo barco, em uma tentativa desesperada de se construir uma certa nova identidade da cultura brasileira. Segundo o jornalista Álvaro Pereira Junior, em um texto para a Folha de São Paulo, o problema da Cena de São Paulo (Tulipa, Thiago Petit, Criolo…), por exemplo, é que todo mundo se tornou amigo de todo mundo. Todo mundo é meio músico, meio blogueiro, meio crítico, meio jornalista, meio…
E, no lugar de crescer, há quem veja essa aproximação entre o Jornalismo e a Cultura como um problema sério para o real desenvolvimento da Cena. Porque cria-se uma falsa ideia de que todo mundo está produzindo no caminho certo, quando, na verdade, havemos de concordar que a Cena Independente do Brasil anda um tanto estagnada. Claro, muitas tem sido as investidas dos artistas, de produtores e de coletivos de incentivo à cultura. Contudo, ainda esbarramos em um problema particular: falta público. Dinheiro. Ou ainda, faltam respostas.
Lúcio, de Vitória, é uma dessas respostas. Primeiro pela sonoridade do EP que o capixaba de vinte e poucos anos colocou na internet há algumas semanas. O disquinho SILVA, com o nome que ele pretente usar daqui pra frente, apresenta cinco faixas que desfilam por uma comunhão de gêneros e estilos. Tudo fruto de um processo de educação musical que vem desde a sua infância, adolescência e, mais recentemente, uma estadia de um ano na Europa. “Lá eu toquei na rua, em pubs, festivais e até em casas de burgueses da cidade que gostavam de mostrar a tal banda exótica da rua para os amigos ricos do sul da França. Voltei cheio de ideias na cabeça e conheci pessoas da minha cidade que nem pensei que existiam”, conta, nesta entrevista realizada por e-mail, há alguns dias.
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E a resposta mesmo de Silva é, bem, sobre essa falta de público que as bandas brasileiras estão enfrentando. Além de concordar que o Jornalismo deve ser mais distante da produção cultural, ele ainda aponta que o problema está é na raiz da coisa. “Não adianta dizer que o Brasil é um país de ritmos diversos e pessoas criativas, se não existe uma escola e uma educação musical bem feita. As pessoas vão ter ideias e depois não saberão o que fazer com elas”. Ou seja, de nada adianta continuarmos insistindo em buscar problemas nas bandas – que, na verdade, estão mesmo mais preparadas do que nunca. Os nossos olhos, e muitas das nossas discussões, devem se preocupar um pouco mais com a… educação. Ou com o governo.
Bom, fato é que Silva é um disco muito bonito, mais bonito do que muita coisa que foi lançada no Brasil, nos últimos anos. Gravado em casa, o projeto ainda precisa de uma banda para poder tomar forma física. E tem muita chance de contornar a estagnação notória que agora estamos dando conta. Um, porque é um trabalho leve, puritano e calculadamente arriscado. Dois, porque tem uma ambição própria, desde a primeira etapa de sua concepção. Seguindo conselho do amigo e co-produtor do EP, Lucas Paiva, Silva convidou o mesmo produtor que masterizou o álbum de James Blake, o inglês Matt Colton, para integrar a finalização do trabalho.
O que não quer dizer que tudo aconteceu de uma maneira quase despretensiosa, é claro. Apesar de “nada ter mudado muito”, Lúcio não só acabou mudando de nome, em menos de um mês pós-lançamento do Silva, como também tem respondido dezenas de entrevistas, convites de gravadoras e possíveis cartas de algumas fãs já apaixonadas. E o motivo para tanto interesse – e toda a expectativa que deve vir em seguida – você vai entender quando ouvir o disco. Ou depois de ler a entrevista abaixo.
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Fazem poucas semanas que o seu EP está na internet. E parece que já circulou bastante, muitas entrevistas, downloads, discussões. O que mudou na sua vida?
Não mudou muita coisa, exceto pelos convites de shows que ainda não posso atender, gravadora que manda contrato pra eu estudar e ainda me bate um certo medo quando vejo aqueles números todos. Fora isso, continuo tendo que estudar meu concerto de violino que tenho que apresentar agora em dezembro. Conciliar isso com a pressão de gravar um disco no início do ano que vem não é fácil, mas isso tem me mantido bastante ocupado.
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Quem era o Silva antes deste EP? De onde veio, aonde tocava, com quem tocava?
O Silva era o Lúcio que não sabia que nome usar para lançar suas músicas e resolveu usar o nome do meio. Bem, eu sou de Vitória, nasci e morei aqui a vida toda. Tenho estudado música desde pequeno e sempre estive envolvido com isso de alguma forma: orquestra, banda de amigos da escola etc. Passei a adolescência por aqui, produzindo trabalho de amigos e envolvido com a música da faculdade, compondo em casa, mas sem mostrar nada a ninguém. Em 2009, decidi passar um ano na Europa, onde aprendi muito com outros músicos amigos e ampliei minha influências musicais. Lá eu toquei na rua, em pubs, festivais e até em casas de burgueses da cidade que gostavam de mostrar a tal banda exótica da rua para os amigos ricos do sul da França. Voltei cheio de idéias na cabeça e conheci pessoas da minha cidade que nem pensei que existiam, como o André Paste, que me incentivou bastante a fazer esse trabalho.

(Na Europa, em 2009, Silva tocava em quebradas assim)
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Você acompanha a cena independente brasileira de perto? Alguma movimentação te interessa mais? A Nova MPB de São Paulo, de repente?
Eu não acompanho muito, mas tenho ouvido algumas coisas muito boas. O som novo brasileiro que eu mais gosto é o da Céu. Se puder chamar o som dela de nova mpb, então eu gosto da nova mpb de São Paulo.
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Tenho conversado com algumas pessoas do meio, como o Tatá Aeroplano, do Cérebro Eletrônico, e também o Graveola e o Lixo Polifônico, banda boa aqui de Belo Horizonte, e há assim um certo consenso de que a Música Independente Brasileira cresceu muito nos últimos anos. Mais visibilidade, mais shows, mais artistas… Mas, ainda assim, quando você pára para analisar, vê que muita coisa ficou estagnada. Dá uma sensação de que ficou faltando um próximo passo. Os artistas indies tomarem o poder. a Mídia. Tem a ver isso, ou estamos viajando?
A música independente cresceu mesmo, assim como o número de pessoas que usam a internet e as redes sociais. A quantidade de artistas bons que têm feito seus discos em casa e alcançado um público pela internet tem sido cada vez maior.
Se tratando de Brasil, acho que nós ficamos um pouco para trás quando o assunto é educação em geral, ainda mais se falarmos de educação musical e acesso a instrumentos de qualidade. Ter um bom professor de música custa caro e comprar instrumentos decentes por aqui é um luxo para poucos. Acho que isso contribui bastante para essa estagnação.
Não adianta dizer que o Brasil é um país de ritmos diversos e pessoas criativas se não existe uma escola e uma educação musical bem feita. As pessoas vão ter ideias e depois não saberão o que fazer com elas. Quando vejo os equipamentos que até mesmo bandinhas de garagem gringas têm acesso, sinceramente, me dá um desânimo enorme. Digo isso porque não adianta só a mídia abrir portas para artistas independentes, como eu. O nível das produções precisa subir em todos os aspectos. Experimenta comprar um bom sintetizador aqui no Brasil e depois me conta quanto você pagou por ele, é bizarro!

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Como você vê o trabalho dos jornalistas brasileiros hoje, em se tratando de música? Falta estar mais presente? Ou, talvez, estar mais distante?
Fico com a segunda opção. Acho que existe um medo de criticar para valer sim, já que todo mundo é tão conectado. Mas não acho que isso seja o pior. Pior mesmo é ver tanta gente querendo ser crítico. Virou moda. Compram os “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” e acham que já podem criticar tudo o que ouvem, como grandes entendedores de música. Uma coisa é ser ouvinte, outra coisa é saber analisar uma estrutura, timbre, estética. Não sabem o que é um sol maior, só conhecem a história da música de Beatles para cá e já acham que podem mudar o mundo com textos prolixos. Me desculpe a acidez, é que isso me incomoda. Não sei onde vai parar essa mania de dar nota à arte: “esse disco é nota 7.2″. Qual the hell é o parâmetro?
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Tinha muito jornalista aí destraído, e você surgiu meio que de repente, um tipo de iluminação, trazendo um caminho legal para a música. Tem gente falando que o Silva era o que a música brasileira precisava, neste momento. Confere?
Haha não sei, mas fico feliz com o elogio.
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(Clique na imagem para começar a baixar o disco. É de graça, e não demora)
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Talvez esse deslumbramento com o Silva venha do fato do seu interesse em mixar muitas influências, trazer um pouco de sonoridades gringas também. O que você consome de música? Existe um interesse seu pelo dubstep inglês, certo?
Eu cresci numa casa que ouve bastante música erudita, mas nunca gostei de ficar só nisso. Sempre deixo o ipod com meus amigos para eles colocarem o que têm ouvido. Gosto de saber o que rola de novo, até porque minha formação me leva mais para o velho. Ultimamente tenho ouvido muita música eletrônica, cada vez mais apaixonado pelo sintetizador. Gosto de dubstep sim, daquele mais antigo e desse que tem acontecido agora também, mesmo que tenha ido para um caminho mais pop.
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Como que surgiu a ideia de convidar o Matt Colton para masterizar o EP? Você conheceu o trabalho dele a partir do James Blake?
O Lucas Paiva, meu amigo que produziu esse EP comigo, estudou engenharia de áudio em Londres e ouviu falar do Matt Colton por lá. Ele já masterizou um número grande de artistas que nós curtimos, Sadwell District foi o primeiro que eu vi e achamos que ele seria o cara certo. O James Blake não é o único artista grande que ele trabalhou, até Coldplay ele já fez.
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E é interessante você vir de Vitória, porque assim como BH, é uma cidade perto do eixo Rio/São Paulo, que não tem tanta visibilidade nacional. Como é a cidade?
Eu sempre morei aqui e não tenho muito do que reclamar. Difícil foi sair da Irlanda e voltar pra cá, sem poder tocar na rua, sem aquelas pessoas de países diferentes. Mas amo meus amigos daqui e o visual da cidade é bem bonito, tudo é bem próximo e tranquilo. Acho que é um ótimo lugar pra produzir.
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Quais os planos agora? O Brasil conhecerá o Silva, ao vivo, só em 2012?
O plano agora é escrever mais músicas para um futuro disco e ensaiar para começar a tocar no ano que vem. Não faço ideia de como vai ser, porque nunca toquei minhas músicas ao vivo, mas confesso que estou bem empolgado.

