Todo mundo gosta de dizer que ouvia Beatles, Rolling Stones, Novos Baianos, Mutantes e, sei lá, Chico Buarque no carro com os pais, quando era criança. Esse foi o primeiro contato com música de quase todas as pessoas que conheço hoje. Comigo nunca foi assim. Meu pai sempre morou em outro estado e, minha mãe, quando estava em casa, gostava de ouvir (repetidas vezes) a trilha-sonora do filme O Carteiro e o Poeta, que conta uma história de Pablo Neruda. É um disco bem bacana, mas eu tinha 7 anos e, claro, queria muito mais. Assim sendo, tive que descobrir a minha música… sozinho.

Eu nunca comprei um LP. Quer dizer, eu nunca comprei um LP nos anos 80. Mas consigo lembrar com clareza a primeira vez que entrei em uma loja de CDs. Era 1995 e sai de lá com o primeiro e único álbum do Mamonas Assassinas – claramente, eu era um daqueles moleques que cantava “Esse raio de suruba” durante a apresentação do grupo paulista no Programa do Gugu, aos domingos, sem sem ter a mínima noção do que era “esse raio de suruba”. Mas aquele universo de rock ‘n’ roll, palavras de sacanagem, mulher pelada na capa do disco e cantores fantasiados de animais no palco bagunçou minha cabeça. Dinho (não o Ouro Preto) foi o meu primeiro – e único – professor de educação sexual. Ele antecipou a conversa que meu pai demorou mais de 15 anos para ter coragem de começar: “Filho, tá na hora de você aprender o que é…suruba”.

A primeira vez que chorei vendo televisão foi no dia em que o Mamonas morreram. Todo mundo que nasceu nos anos 80 sabe aonde estava no dia em que os Mamonas morreram. Eu tinha chegado da aula de inglês e – acreditem ou não – entrei em casa cantando “Mina, seus cabelo é da hora”. Encontrei minha mãe no corredor e, pela expressão do seu rosto, imaginei que alguém da família tivesse empacotado. “Já está sabendo?”, perguntou. Olhei para a TV ligada na sala, sentei na cadeira mais próxima em silêncio, e não segurei nenhuma das lágrimas que desceram. Lembro que, naquele dia, nenhum dos meus amigos do prédio desceram para jogar bola. Não ia ter a menor graça.

Na minha casa, até então, só tinha mais um CD: Roots, do Sepultura, aquisição do meu irmão Fernando Biagioni, cinco anos mais velho. Enquanto o meu quarto era decorado com todos os posteres do Cruzeiro que eu tinha encontrado em revistas e jornais dos últimos anos, o dele tinha uma bandeira do Atlético e dezenas de vinis do Iron Maiden espalhados pelas prateleiras. Em comum entre nós dois, uma cena que nunca sai da minha memória: por seguidas madrugadas, a gente se encontrava na sala de casa para ouvir Pretty fly (for a white guy), do Offspring, que tocava na Jovem Pan todos os dias à meia-noite em ponto. Em uma das noites, conseguimos gravá-la completinha em uma fita. E passamos a ouvir Dexter Holland cantando mais de uma vez por dia.

Por volta de 1996 meu irmão ganhou um computador. Eu achava o meu Super Nintendo muito mais interessante do que ficar escrevendo códigos no MS-DOS. Só me interessei por aquilo anos mais tarde, quando umas gêmeas de Goiânia que estavam no meu prédio falaram que a gente podia conversar pelo “ICQ” enquanto estivéssemos longes. No mesmo dia chamei meu amigo Alexandre, do apartamento 1504, para me ensinar a mexer no programa (meu irmão já tinha ele instalado, é claro). Foi quando descobri o que era internet – e que, depois de meia-noite, só se pagava o primeiro impulso da conexão. É estranho, mas sinto falta daquele barulho irritante.

Chorei mais uma vez vendo televisão dois anos depois. Nunca vou esquecer da cobertura da Globo para a morte do Leandro, da dupla Leandro e Leonardo. Um helicóptero sobrevoava Goiânia, mostrando cenas do enterro do cantor, enquanto tocava repetidas vezes O sonhador“Não vou deixar // de ser um sonhador. Pois sei vou encontrar // no fundo dos meus sonhos // o meu grande amor”. Não há duvidas: essa é uma das letras mais bonitas da música popular brasileira. E era, também, uma das poucas músicas que eu tinha gravado em fita.

Esse é um dos “problemas” de não ter tido uma educação musical muito forte em casa. Tirando a trilha de O carteiro e o poeta, minha mãe também ouvia bastante música latina. Meu pai era fã de Bee Gees, The Who, Supertramp e Led Zeppelin (uma mistura estranha, convenhamos). E, para fechar a turma, tinha o meu irmão. Depois da “fase metal”, ele abraçou um pouco de Nirvana (Nevermind foi o terceiro CD a aparecer lá em casa) e, logo depois, entrou em uma onda mais “punk californiano”.

À essa altura, a nossa coleção de Cds já estava começando a crescer. A maioria tinha sido comprada no camelô: Green Day, Capital Inicial, NOFX, Sex Pistols, Cássia Eller, Hino dos Clubes (futebol), Bruno e Marrone, Millencolin, Prodigy e coisas parecidas. Em 1999, fomos para a Europa. Trouxemos de lá o disco novo do Eminem (The Slim Shady), que marcaria a “decadência do rap”, e o Slowly Going the Way of the Buffalo, do MXPX.

Se Dinho (Mamonas) me ensinou quase tudo que sei sobre sexo – o sertanejo me deu uma visão distorcida do que é o amor. “Quero sentir, quero ouvir – seus passos de volta à minha porta. Para dizer que me amava enquanto estava longe…”. Minha cabeça estava sendo bagunçada – mais uma vez. E, agora, quem conversava comigo era um monte de cornos de Goiás. Sem problemas. Não fossem eles, era bem possível que eu não tivesse escrito todas aquelas palavras de amor na 6ª série.

Então apareceu o Napster. De uma hora para a outra eu podia ouvir o que quisesse – e quando quisesse – dentro da minha própria casa. Belo Horizonte estava passando por mais uma fase “clubber” e, não sei por que, fazia algum sentido ouvir Skazy, Scooter, Lasgo e algumas coisas do tipo no maior volume possível. Eu tinha todos os discos da série “Na Balada”, da Jovem Pan. É difícil lembrar disso, mas acredito que todo mundo tenha passado por uma fase estranha na vida. Bom, pelo menos nunca curti muito Legião Urbana. Nem Simple Red. Ou U2.

Minha relação com a música mudou um pouco a partir daí. Essa facilidade de ter o que quiser na sua frente tem um lado extremamente negativo. Antes existia um carinho maior com a música – um carinho maior para conseguir ouvir uma determinada música. Tinha que ser meia-noite em ponto, na rádio, do lado do meu irmão. Ou a gente tinha que garimpar por Cds em lojas, sebos, casas de amigo e camelôs. E eles tinham que ser relativamente baratos – é claro. Depois de cada uma dessas empreitadas – dessas buscas – tinha-se o fruto, o abençoado fruto. É um sentimento bem diferente deste que existe hoje. Em 10 minutos tem-se qualquer CD (completo) na tela do seu computador. O mundo mudou. Isso é inegável.

Meu amadurecimento veio no dia que descobri o Sr. Chico Buarque de Hollanda, o maior comedor das Américas, o poeta dos olhos azuis e oblíquos por natureza. Senti calafrios estranhos ouvindo Joana Francesa pela primeira vez. Fiquei encantado com a desconstrução dos versos na música Construção. E cantei Vai passarCáliceMeu caro amigo como se estivesse no Rio de Janeiro de dezembro de 1968. Chico abriu as portas para que eu conhecesse Vinícius, Tom, Cartola, Nara, Caetano, Morais Moreira, Gil, Pixinguinha etc. Chico me mostrou a música brasileira.

Essa foi só a primeira transformação. A segunda veio em seguida, no dia em que descobri que Jimmy Page e Robert Plant escreviam músicas de amor. “Meu Deus, as letras do Led Zeppelin falam de… amor!”, exclamei, ao colocar o disco (sim, vinil) Led Zeppelin II para tocar no meu quarto. No mesmo álbum, ainda tem HeartbreakerThank youWhat is and what should never be. Até então, via o Led como a banda daqueles meus colegas que armavam planos para foder com a professora de português. Eu tinha medo de participar daquela ceita que envolvia nomes como Ozzy, ACDC, Who. Quanta merda passava pela minha cabeça (e ainda deve passar).

Então vi que a alma do Plant estava no Blues e – com o coração aberto – não demorei muito mais de cinco minutos para descobrir o Blues. Muddy Watters, Howlin Wolf, Clapton, B.B. King e Albert King embalaram os versos mais bonitos que já tentei escrever em um guardanapo amassado. Por seguidas madrugadas de frio, viajei até o Mississipi, até Chicago, para ouvir Robert Johnson e seu gaitista Sonny Boy Williamson sussurrarem palavras de sofrimento e de amor nos meus ouvidos. Como isso me fez – e ainda me faz – feliz.

Então, lendo e assistindo a filmes, comecei a perceber que a minha viagem musical nunca terminaria. Alta Fidelidade me apresentou Nick Hornby (o roteirista) e me fez mergulhar de cabeça na cultura pop. Conheci, em seguida, Lester Bangs, Greil Marcus, Simon Reynolds e outros célebres críticos musicais norte-americanos e britânicos. Mate-me por favor me fez interessar pelo punk. Só assim conheci (de fato) Ramones, Pistols, Television, New York Dolls, Buzzcocks, Clash, Patti Smith, Iggy Pop, MC5 e, principalmente, Velvet Underground. Apaixonei-me rapidamente por tudo que tinha os versos de Lou Reed, Jim Morrison, Bob Dylan e, mais tarde, Neil Young.

Quase famososOs sonhadores (de Bernardo Bertolucci) e os jornalistas Hunter Thompson, Tom Wolfe e Chris Simunek definiram o meu futuro: o curso de jornalismo. Entrei na faculdade não sabendo de nada sobre coisa nenhuma. E, hoje, tenho orgulho de dizer que sei menos ainda. Conheço um pouco de rock, um pouco de blues e um pouco de punk. Vi, em cima do palco, de Radiohead a ACDC. De Ivete Sangalo a Los Hermanos. De Animal Collective a MGMT. De Johnny Rivers a Chuck Berry. Tudo bem bacana, mas “nada demais”, dirão os mais velho. “Tudo bem”, eu respondo. Sou filho dos anos 80 – e, para nós, o mundo da música está só começando. Mais uma vez.


*Esse título é uma paródia descarada da música I was born in the 90s, do Mickey Gang, a banda mais bacana de Colatina (ES).